
1 Introdução
O ano de 2026 assinala os 81 anos do término da Segunda Guerra Mundial no teatro europeu, evento que moldou a geopolítica global e deixou marcas profundas na identidade nacional brasileira. A data de 8 de maio, consagrada como Dia da Vitória, representa a capitulação incondicional da Alemanha nazista diante das forças aliadas, encerrando um conflito que ceifou mais de 70 milhões de vidas (Brasil, 2024). Para o Brasil, a efeméride carrega significados que transcendem a celebração militar: simboliza a participação efetiva do país como ator relevante no concerto das nações e o sacrifício de quase 500 combatentes tombados em solo italiano.
Embora a historiografia já tenha se debruçado sobre a atuação da FEB e de seus comandantes, lacunas persistem quanto à articulação entre a memória institucional preservada no MNMSGM e as transformações recentes no campo da produção científica, notadamente a emergência de pesquisa e escrita e consultiva. Diante desse cenário, o presente artigo persegue duplo objetivo: recuperar, por meio de fontes primárias e secundárias, a trajetória histórica que culminou no 8 de maio de 1945 e sua celebração no Brasil.
2 O 8 de Maio de 1945: Gênese e Desdobramentos
2.1 A rendição alemã e o significado geopolítico
A Segunda Guerra Mundial na Europa chegou ao fim com a assinatura da rendição incondicional alemã em Reims, no quartel-general do General Eisenhower, em 7 de maio de 1945, e sua ratificação em Berlim, no dia seguinte. Conforme apontam Beevor (2012) e Hastings (2018), a dupla cerimônia refletiu tanto a desconfiança soviética em relação aos Aliados ocidentais quanto a necessidade de legitimar simbolicamente o colapso do Terceiro Reich perante as forças que o haviam derrotado.
A data de 8 de maio foi imediatamente proclamada Victory in Europe Day (V-E Day) pelas nações aliadas. Em Londres, multidões se concentraram em Trafalgar Square e diante do Palácio de Buckingham, onde o Rei Jorge VI, acompanhado pela Rainha Elizabeth e pelo Primeiro-Ministro Winston Churchill, saudou a população (Viva a História, 2018). Nos Estados Unidos, o Presidente Harry Truman, que completava 61 anos naquele dia, dedicou a vitória a Franklin Roosevelt, falecido menos de um mês antes, em 12 de abril. Para Kershaw (2011), o V-E Day representou mais do que o triunfo militar: simbolizou a derrota do totalitarismo que ameaçava a humanidade em meados do século XX.
2.2 O Brasil e a construção da vitória
O envolvimento brasileiro na guerra remonta ao rompimento de relações diplomáticas com o Eixo em janeiro de 1942, culminando na declaração formal de guerra em agosto do mesmo ano, após o afundamento de navios mercantes nacionais por submarinos alemães (Ferraz, 2003). A criação da Força Expedicionária Brasileira, em 9 de agosto de 1943, representou a materialização do compromisso brasileiro com os Aliados.
A FEB, apelidada de "Cobras Fumantes" em alusão ao ceticismo inicial quanto à sua capacidade combativa, contava com aproximadamente 25.900 homens, incluindo uma divisão de infantaria completa e um esquadrão de caças (Brasil, 2025). Subordinada ao IV Corpo do Exército dos Estados Unidos, a tropa brasileira participou da libertação da Itália setentrional entre setembro de 1944 e maio de 1945, notabilizando-se em combates como a tomada de Monte Castello (21 de fevereiro de 1945) e a rendição da 148ª Divisão Alemã em Fornovo di Taro (Oliveira, 2005).
O professor Dennison de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná, sintetiza a avaliação predominante na historiografia especializada: "Houve altos e baixos, mas a resultante líquida é de que a FEB foi um sucesso", destacando ainda que tal desempenho "garante ao Brasil um papel muito importante na fundação da Organização das Nações Unidas em 1948" (DEUTSCHE WELLE, 2025, n.p.). O Ministério da Defesa registrou, em nota oficial de 2024, que o conflito resultou para o Brasil no afundamento de 34 navios mercantes e de guerra, na perda de 22 aeronaves e em aproximadamente 500 baixas fatais em combates terrestres (Brasil, 2024).
2.3 O comando brasileiro: oficiais-generais da FEB
A condução estratégica da Força Expedicionária Brasileira recaiu sobre um quadro de oficiais-generais cuja atuação foi essencial para a adaptação da tropa às exigências do teatro de operações europeu. Destacam-se as seguintes figuras (Brasil, 1945).
- Marechal João Baptista Mascarenhas de Moraes (1883-1968): comandante geral da FEB, foi o responsável máximo pela coordenação da força expedicionária em território italiano. Idealizador do MNMSGM, sua liderança conferiu unidade de comando a uma tropa heterogênea, composta majoritariamente por recrutas oriundos das classes trabalhadoras urbanas.
- General Gustavo Cordeiro de Farias (1893-1971): comandante da 2ª Brigada de Infantaria da FEB, destacou-se na organização logística e no adestramento dos praças. Após a guerra, teve papel relevante na modernização do Exército Brasileiro.
- General Euclides Zenóbio da Costa (1893-1963): comandante do 1º Regimento de Infantaria, liderou as tropas brasileiras em Monte Castello e em outras ações ofensivas na Linha Gótica, conquistando respeito entre os aliados.
- General Olympio Falconière da Cunha (1893-1981): comandante da Artilharia Divisionária da FEB, coordenou o apoio de fogo que se revelou decisivo em diversos engajamentos.

Figura 1
Os Quatros Oficiais Generais Brasileiros que comandaram a Campanha da FEB no teatro de operações da Itália.
Fonte: (Brasil,1945).
O professor Francisco César Ferraz, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), observa que o recrutamento para a FEB reproduziu as desigualdades sociais brasileiras: "Os recrutados foram aqueles que não tinham nenhum tipo de apadrinhamento" (Deutsche Welle, 2025). Essa composição social, contudo, não impediu que a tropa brasileira cumprisse todas as missões que lhe foram atribuídas, conquistando o respeito dos comandantes aliados.
2.4 A celebração no Brasil e a fundação do MNMSGM
Na capital federal de então, o Rio de Janeiro, a notícia da capitulação alemã desencadeou manifestações populares que o jornal O Globo descreveu como um "carnaval improvisado" (Deutsche Welle, 2025). A euforia coletiva indicava o grau de envolvimento da sociedade brasileira no conflito, mesmo sob a ditadura do Estado Novo.
Para perpetuar a memória dos 467 soldados brasileiros mortos em combate na Itália, foi idealizado pelo Marechal Mascarenhas de Moraes o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, inaugurado em 5 de agosto de 1960 no Parque Brigadeiro Eduardo Gomes, no Rio de Janeiro (Museus do Rio, 2021). O projeto arquitetônico, de autoria de Marcos Konder Netto e Hélio Ribas Marinho, desenvolve-se em três planos integrados à paisagem da Baía da Guanabara. No subsolo, o mausoléu abriga os restos mortais dos combatentes repatriados da Itália (Monumento aos Mortos, 2025).
O MNMSGM exerce função educativa duradoura, promovendo exposições itinerantes como a realizada pelo Museu Aeroespacial (MUSAL) em janeiro de 2025, que exibiu uma maquete do caça Republic P-47 Thunderbolt utilizado pelo 1º Grupo de Aviação de Caça (Força Aérea Brasileira, 2025). A cerimônia de troca de guarda entre Exército, Marinha e Aeronáutica, realizada mensalmente, reafirma o caráter tripartite da participação brasileira no conflito e a vigência do pacto de memória nacional.
3 Discussão
A preservação da memória dos pracinhas no MNMSGM e as cerimônias anuais de 8 de maio reafirmam o compromisso do Estado brasileiro com o reconhecimento do sacrifício de seus combatentes. Como destacou o Ministro da Defesa, José Mucio Monteiro, "as Forças Armadas de hoje são as legítimas herdeiras dessas tradições e orgulham-se de prosseguir no cumprimento de suas atribuições, fiéis às tradições e cientes de sua elevada responsabilidade" (Brasil, 2024).
4 Conclusão
Este artigo procurou demonstrar que o Dia da Vitória de 8 de maio de 1945 representa, para a experiência histórica brasileira, mais do que uma efeméride beligerante: constitui um marco da inserção do país no sistema internacional do pós-guerra e um ponto de referência para a identidade das Forças Armadas nacionais.
A atuação dos oficiais-generais que comandaram a FEB Mascarenhas de Moraes, Cordeiro de Farias, Zenóbio da Costa e Falconière da Cunha ilustra a capacidade de adaptação e liderança do corpo militar brasileiro em um contexto adverso. O MNMSGM, como espaço de memória viva, assegura que o sacrifício dos pracinhas não se dissipe no esquecimento.
Referências
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VIVA A HISTÓRIA. 08 de maio de 1945. Acaba a Segunda Guerra Mundial. Em Londres, o Rei George VI e sua família, junto ao Primeiro Ministro Winston Churchill, aparecem na sacada do Palácio de Buckingham para saudar a população.Disponível em:https://juarezribeiroa.blogspot.com/2018/05/08-de-maio-de-1945-acaba-segunda-guerra.html?m=1. Acesso em: 3 mai. 2026.
Prof. Me. Carlos Luiz Dias - Engenheiro de Produção Mestre em Saúde e Tecnologias (UNIRIO). Vice-Presidente de TI do Conselho de Minerva (UFRJ). Membro do InstitutoTherezinha de Castro (Escola Superior de Guerra-ESG). Sócio Fundador do Instituto de Desenvolvimento Humano do Brasil (IDH/BRASIL). Assessor de Comunicação Social (ADESG-NACIONAL). GRUPOS DE PESQUISAS QUAL FAÇO PARTE; 1) Grupo de pesquisa: OBSERVATÓRIO DE SEGURANÇA E DEFESA Líder: Prof Pós Doutor Jacintho Maia Neto. Defesa Instituição do grupo: Instituto Therezinha de Castro - ITC.Escola Superior de Guerra - ESG. Endereço para acessar este espelho: dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/0444058833860117 2) Objetivos: O Observatório de Segurança e Defesa ao estudar e compreender a ambiência da área de Segurança e Defesa, sob a ótica da gestão, busca contribuir com o debate na área da Defesa. GEOPOLÍTICA DO BRASIL Líder: Prof. Pós-Doutor Guilherme Sandoval Góes. Área Predominante: Defesa e Geopolítca Instituição do grupo:Instituto Therezinha de Castro - ITC. Escola Superior de Guerra - ESG. Espelho: https://dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/784267