A invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, não é um mero acidente histórico. Ela evoca Halford Mackinder e seu conceito de heartland (núcleo continental), o “pivô geográfico da história”. Em 1904, Mackinder dividiu o mundo em três faixas: heartland (a vasta planície interior da Eurásia, rica em recursos e protegida por mares internos), rimland (as fímbrias costeiras que cercam o núcleo) e outer crescent (arco externo de ilhas e potências marítimas, como britânicos e americanos).
“Quem controla o Leste Europeu comanda o heartland. Quem comanda o heartland domina a Ilha Mundial, a Eurásia unida. Quem domina a Ilha Mundial governa o planeta.” A Ucrânia representa esse “Leste Europeu”. Para Moscou, ela é a porta de entrada para a expansão telurocrática (baseada no controle territorial).
Em discurso de 21 de fevereiro de 2022, Putin invocou herança histórica e unidade eslava contra a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), segundo registros do Kremlin. Dados do SIPRI (Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo) indicam que os gastos militares russos subiram para US$ 109 bilhões em 2023, ou 5,9% do PIB.
Nicholas Spykman, nos anos 1940, contestou Mackinder ao propor que o verdadeiro prêmio estratégico é o rimland (fímbria costeira). Em A Geografia da Paz, Spykman mapeou o semicírculo ao redor da Eurásia — da Noruega à Indonésia — como chave para a contenção. Para ele, potências marítimas precisam aliar-se aos rimlands para isolar grandes potências continentais no heartland, conforme analisado em sua obra.
A OTAN teria fornecido até 2025 mais de US$ 200 bilhões em ajuda à Ucrânia, inclusive caças F-16 e mísseis ATACMS (Sistema de Mísseis Táticos do Exército), segundo o Pentágono. Isso estreita o cerco ao heartland russo. Ainda segundo o banco de dados Oryx, a Frota do Mar Negro perdeu 25 navios, incluindo o cruzador Moskva, afundado em abril de 2022. O bloqueio aos grãos ucranianos agravou a fome global, elevando o número de afetados para 345 milhões, segundo o Programa Mundial de Alimentos (PMA).
Alfred Mahan, em 1890, em A Influência do Poder Naval sobre a História, enfatizou a importância de frotas, bases e rotas comerciais. Os EUA tornaram-se potência naval após a Guerra Hispano-Americana, dominando Atlântico e Pacífico.
No caso ucraniano, Mahan contribui para explicar sanções ocidentais que congelaram US$ 300 bilhões de reservas russas e o embargo ao petróleo, reduzindo as receitas em 40%, segundo o Banco Central da Rússia (2024). Em resposta, Moscou focou na China, exportando gás pelo gasoduto “Power of Siberia”, mas com custos logísticos elevados, de acordo com análises de mercado.
Friedrich Ratzel complementa com o conceito de Lebensraum (“espaço vital”, em 1901), segundo o qual Estados, como organismos, precisam se expandir para sobreviver. A anexação da Crimeia (2014) e a tentativa de controle do Donbas (2022) seriam expressões desse impulso expansionista, conforme ressaltado por estudos em geopolítica. A ONU contabiliza 14 milhões de deslocados ucranianos, o que evidencia a brutalidade desse processo, segundo relatório oficial (2024).
Transpondo à Síria, a queda de Bashar al-Assad em 8 de dezembro de 2024 reforça a lógica de Spykman: o rimland sírio conecta o Mediterrâneo ao Eufrates. Assad, aliado de Teerã e Moscou, hospedava bases russas em Tartus e Hmeimim. O grupo Hay’at Tahrir al-Sham (HTS), apoiado pela Turquia, conquistou Damasco em 10 dias, segundo fontes locais e internacionais.
Israel bombardeou 1.200 alvos desde 2022 e destruiu 80% dos arsenais iranianos na Síria, segundo relatórios das Forças de Defesa de Israel (IDF). O domínio naval ocidental no Mediterrâneo, sustentado por seis porta-aviões americanos operando em rotação, expressaria a visão de Mahan.
A Rússia perdeu influência na Síria ao não consolidar um heartland local; aqui, a visão de Ratzel limita-se, pois, a expansão iraniana via milícias xiitas fracassou por falta de continuidade territorial, segundo análises do IISS (International Institute for Strategic Studies).
O ataque do Hamas a Israel, em 7 de outubro de 2023, deixando 1.200 mortos e 251 reféns (segundo o governo israelense), desperta um “Mackinder local”. Israel controla um heartland no Negev e nas Colinas de Golã, vistos como barreiras naturais, segundo estudos do IDF.
O revide eliminou Sinwar em Rafah (outubro de 2024) e Haniyeh em Teerã (julho de 2024), conforme anunciado pelo Mossad. Spykman ajuda a entender os Acordos de Abraão (2020), que uniram rimlands sunitas sob apoio dos EUA em oposição ao “heartland xiita” iraniano.
Bahrein, Emirados, Sudão e Marrocos normalizaram laços, atingindo US$ 10 bilhões em comércio anual, de acordo com o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR). Mahan está presente no bloqueio naval de Gaza e na superioridade aérea israelense com F-35.
Já Ratzel poderia interpretar o Hamas como busca palestina por espaço vital, mas a assimetria demográfica (9 milhões de israelenses contra 2 milhões em Gaza) dificulta uma solução por expansão.
A Venezuela sob Maduro desafia o outer crescent americano. As eleições de 28 de julho de 2024 foram consideradas fraudulentas por oposição e governo dos EUA. Sanções da OFAC (Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros) congelaram US$ 8 bilhões em ativos da PDVSA (Petróleos de Venezuela S.A.).
Mahan explicaria o controle americano do Caribe, viabilizado por sete bases navais, segundo relatório do Departamento de Defesa dos EUA (DoD). A China investiu US$ 60 bilhões no petróleo venezuelano, mas sem projeção marítima significativa, conforme reportagens da Reuters.
A Rússia enviou 200 mercenários do Grupo Wagner, que recuaram após a morte de Prigozhin em 2023, segundo entrevistas do Instituto Real Unido de Serviços (RUSI). Para Ratzel, a distância geográfica limita ambições bolivarianas. O FMI projeta o PIB venezuelano encolhendo para US$ 92 bilhões em 2025, uma queda de 75% em relação a 2013.
Os ataques ao Irã em 2024–2025 validam a teoria do rimland. Após drones iranianos atingirem Israel em abril de 2024 (segundo IDF), Tel Aviv respondeu bombardeando Natanz e Fordow. A AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) relatou, em novembro de 2024, a destruição de 60% das centrífugas nucleares iranianas.
Spykman veria os curdos sunitas como “fímbrias” que contêm Teerã. Mahan se observa no controle do Estreito de Ormuz, por onde passam 21 milhões de barris diários, com cinco porta-aviões americanos patrulhando a área, de acordo com a Administração de Informação de Energia (EIA). As sanções reduziram as exportações iranianas para 1,2 milhão de barris/dia em 2024. Apesar de apoio e armamentos de Rússia e China, o bloqueio marítimo persiste.
A teoria das fímbrias de Spykman se sobressai no Indo-Pacífico. A China reivindica Taiwan como rimland vital. Exercícios militares chineses em 2025 simularam bloqueio à ilha, mas a Sétima Frota dos EUA, com 50 navios, respondeu rapidamente, segundo o Departamento de Defesa dos EUA.
Mackinder erraria se Pequim conquistar Taiwan, unindo heartland ao Pacífico; mas Spykman mantém relevância, pois Filipinas, Vietnã e alianças como o QUAD reforçam o cerco ao poder continental chinês.
Várias confirmações sugerem a força dessas teorias: a Ucrânia infligiu, segundo o Ministério da Defesa do Reino Unido (2025), estimadas 700 mil baixas russas — validando o rimland como vala de contenção. A Síria pós-Assad pretende abrir gasodutos para a Europa, reduzindo a dependência do gás russo, segundo projeções da Agência Internacional de Energia (AIE).
Israel expandiu soberania no Golã, reconhecida pelos presidentes Trump (2019) e Biden (2025), conforme comunicados oficiais da Casa Branca. Na Venezuela, a oposição liderada por González ganhou apoio da OEA, apesar do exílio, segundo agências internacionais.
Por outro lado, há desconfirmações e limites nas teorias clássicas. Ratzel ignora normas da ONU: anexações russas foram condenadas por 141 países na Assembleia Geral em março de 2022. Mahan enfrenta o desafio dos mísseis hipersônicos Kinzhal, que afundaram navios ucranianos, segundo reportagens da BBC. Mackinder subestima impactos da guerra cibernética: a Starlink ucraniana teria neutralizado até 40% das comunicações russas, segundo informações da SpaceX. Spykman falha na explicação do caso afegão: em 2021, o Talibã reconquistou o heartland nacional mesmo sem um rimland forte, de acordo com análises do Council on Foreign Relations.
Segundo John Mearsheimer, em “Por que o Oeste Provocou Putin” (2014), a expansão da OTAN violou a lógica da realpolitik. Arquivos do National Security Archive mostram registros de 1990 nos quais James Baker prometia não expandir a aliança, mas sem tratado escrito. A Freedom House, por sua vez, registrou avanço democrático na Ucrânia, para índice 49/100 em 2024.
A globalização dilui o territorialismo: a Belt and Road chinesa, com US$ 1,1 trilhão, conecta 150 países sem recorrer a invasões, segundo AidData. Drones e IA mudam a guerra moderna: a Ucrânia produziu 2 milhões de drones FPV em 2024, conforme o Kyiv Post. O petróleo de xisto americano, chegando a 13 milhões de barris/dia em 2025, aumenta a autonomia energética dos EUA, de acordo com a EIA.
A síntese final é que terras buscam massa crítica, mas potências marítimas ditam termos via fímbrias (bordas estratégicas). Os EUA, com 11 porta-aviões e 800 bases globais (DoD), sustentam o outer crescent. A Rússia, com PIB de US$ 2 trilhões frente a US$ 28 trilhões dos EUA (Banco Mundial, 2024), enfrenta desvantagens estruturais. A China cresce, porém Taiwan (rimland) bloqueia sua projeção plena ao Pacífico.
A Europa, após a invasão da Ucrânia, realocou US$ 50 bilhões para defesa, segundo a Agência Europeia de Defesa (EDA, 2025), ecoando Spykman. O Oriente Médio pós-Assad vê Israel e Arábia Saudita negociando paz contra proxies iranianos, segundo fontes diplomáticas. A América Latina resiste à influência chinesa via USMCA (Acordo Estados Unidos-México-Canadá), com México exportando US$ 800 bilhões, segundo o Departamento de Comércio dos EUA.
A reflexão final permanece: a geografia molda destinos, mas tecnologia e alianças podem alterar as regras do jogo. Ocidente manteve intactos seus rimlands, enquanto heartlands seduzem líderes como Xi e Putin. Quem dominar as fímbrias navegará o século — mas a história não perdoa distrações.
Os fundamentos da geopolitica classica Mahan Mackinder

