
A semana que se encerra deixou um rastro diplomático que merece leitura cuidadosa. Em reunião dos chanceleres do BRICS, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, declarou abertamente que Teerã está disposto a receber ajuda de qualquer país capaz de oferecê-la, mencionando nominalmente a China. Poucas horas antes, o presidente americano Donald Trump havia conversado por telefone com Xi Jinping para tratar, entre outros assuntos, da situação no Estreito de Ormuz, onde a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã caminhava para o seu septuagésimo oitavo dia. A justaposição dessas cenas não é mero acaso de calendário. Ela sinaliza uma transformação silenciosa, porém decisiva, na arquitetura de mediação internacional que sustentou as últimas três décadas.
A pergunta que se impõe é precisa. Quando uma potência deixa de mediar e passa a operar como parte interessada de fato, ainda que travestida de árbitro, o que ocorre com a previsibilidade do sistema internacional? A resposta, longe de ser apenas técnica, tem implicações concretas sobre rotas energéticas, cadeias logísticas, esquemas de dissuasão e, no limite, sobre a forma como o Direito Internacional Humanitário será aplicado, ou ignorado, nos próximos ciclos de conflito. Mais do que isso, a resposta afeta diretamente a percepção dos atores médios do sistema, aqueles Estados que não dispõem de capacidade militar para impor preferências, mas que dependem de normas estáveis para fazer valer seus interesses legítimos em foros multilaterais.
O BRICS nasceu como um agrupamento informal de economias emergentes, gestado nos anos 2000 em torno de uma percepção compartilhada de que a governança global, ancorada em instituições do pós-1945, não refletia a redistribuição efetiva de poder econômico ocorrida nas duas décadas anteriores. Era um clube de demandantes de reforma, não de revisionistas. Havia espaço para coordenação macroeconômica, articulação em foros como o G20, criação do Novo Banco de Desenvolvimento e tentativas modestas de reduzir a exposição ao dólar em transações intra-bloco. Nada disso, ressalte-se, configurava confronto sistêmico, e tampouco oferecia, naquele momento, qualquer ambição de substituir os arranjos institucionais existentes.
O quadro mudou. A ampliação do bloco, com a entrada de Irã, Emirados Árabes Unidos, Egito e Etiópia, e a posterior incorporação de outros parceiros em formato de Estados associados, alterou a natureza do agrupamento. O bloco passou a abrigar, ao mesmo tempo, atores em conflito ativo com a ordem ocidental, como o próprio Irã, e atores profundamente integrados a ela, como os Emirados. Essa heterogeneidade, longe de enfraquecer o grupo, ofereceu à China e à Rússia uma plataforma multilateral conveniente para projetar narrativas alternativas sem assumir os custos diplomáticos de uma confrontação direta. O que era plataforma de reforma converteu-se, gradualmente, em vitrine de contestação seletiva.
A fala de Araghchi em território do BRICS, portanto, não foi um pedido casual de ajuda. Foi um movimento calculado de internacionalização da crise iraniana, deslocando-a do eixo bilateral com Washington para um foro onde Teerã encontra escuta receptiva e, mais relevante, onde Pequim pode atuar como interlocutor preferencial sem precisar arcar com o ônus de uma mediação formal. A China, em outras palavras, recebe legitimidade sem assumir compromissos verificáveis. O efeito acumulado dessa estratégia, repetida ao longo de várias crises regionais nos últimos anos, é o aprofundamento de uma assimetria perversa entre prestígio diplomático conquistado e responsabilidade efetiva exercida.
É aqui que reside a tentação chinesa, e também o seu risco para o sistema. Pequim aprendeu, com o acordo de reaproximação entre Arábia Saudita e Irã firmado em março de 2023, que mediar conflitos rende dividendos políticos enormes a custos relativamente baixos. Uma fotografia em Pequim, três comunicados conjuntos, e a imagem de potência responsável estava consolidada. O problema é que a situação atual em Ormuz é qualitativamente distinta. Não se trata de costurar um restabelecimento de relações diplomáticas entre dois Estados que já se toleravam em silêncio. Trata-se de uma guerra ativa, com setenta e oito dias de hostilidades, mais de mil e duzentos mortos apenas em Teerã segundo dados municipais iranianos, danos significativos à infraestrutura energética regional e uma crise global nos preços de combustíveis que já obrigou Washington a discutir suspensão temporária de impostos federais sobre gasolina.
Mediação genuína exige equidistância, ou ao menos a aparência crível dela. A China não a tem. Pequim é o maior comprador isolado do petróleo iraniano sob sanções, opera oleodutos estratégicos com Teerã, mantém acordo de cooperação de vinte e cinco anos assinado em 2021 e depende do fluxo livre por Ormuz para abastecer sua própria economia. Cada barril que atravessa o estreito sob bandeira de conveniência, cada transferência *ship to ship* em alto-mar, cada manobra de desligamento de sistemas de identificação automática beneficia diretamente a balança energética chinesa. Há, portanto, uma assimetria de interesses que torna qualquer mediação chinesa estruturalmente comprometida, ainda que cosmeticamente eficaz para fins de relações públicas.
O mecanismo de pedágio em Ormuz, anunciado por autoridades iranianas e a ser detalhado nas próximas semanas, ilustra bem o ponto. Trata-se, na prática, da tentativa de monetizar o controle territorial sobre uma das mais importantes vias de transporte energético do planeta, transformando uma posição geográfica em fonte de receita coercitiva. O conceito jurídico de passagem em trânsito, consagrado pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, é frontalmente atingido. E aqui está o detalhe inconveniente. A China é signatária da Convenção. Os Estados Unidos não a ratificaram. Em tese, Pequim teria obrigação de denunciar o pedágio iraniano como violação do regime jurídico internacional. Na prática, fará silêncio, ou, no máximo, conclamará as partes a buscarem soluções negociadas, fórmula vaga que permite tudo e não compromete nada.
Esse silêncio seletivo é a marca registrada da diplomacia chinesa contemporânea e o ponto de maior vulnerabilidade do argumento de que Pequim está pronta para assumir responsabilidades sistêmicas. Liderança internacional, no sentido pleno do termo, implica custos. Implica criticar parceiros, aplicar sanções quando regras são violadas, sustentar coerência entre o discurso e a prática operacional. A China tem mostrado preferência consistente por outra fórmula. Colhe os benefícios de aparecer como alternativa ao Ocidente sem internalizar os encargos que essa alternativa imporia. É liderança no balcão, não no caixa, para usar uma metáfora corrente entre operadores de comércio internacional.
Há um segundo elemento que merece atenção. A ligação telefônica entre Trump e Xi sobre Ormuz, ocorrida na mesma janela temporal da reunião do BRICS, sugere que Washington reconhece, ainda que a contragosto, o papel de Pequim como interlocutor inevitável. Esse reconhecimento é estrategicamente delicado. Ele confere à China algo que ela não conquistou pela via dos compromissos verificáveis, mas pela via da abstenção calculada. É o paradoxo do mediador que se beneficia da própria ambiguidade, transformando a falta de posicionamento em ativo diplomático e a opacidade em instrumento de barganha.
Para o Ocidente, e em particular para os países europeus que dependem do tráfego em Ormuz e do fornecimento de gás natural liquefeito do Catar, a situação configura um desafio analítico que vai além da resposta imediata à guerra. Trata-se de decidir se a arquitetura de mediação internacional será reconstituída sobre princípios verificáveis, com obrigações claras para todos os mediadores, ou se será aceita uma divisão funcional na qual o Ocidente arca com os custos da ordem enquanto outros atores extraem dividendos da desordem administrada. A escolha não é meramente conceitual. Ela define se haverá, ou não, instrumentos coletivos minimamente eficazes para conter as próximas escaladas, que virão.
A experiência histórica recente oferece lições. A diplomacia de Camp David, em 1978, funcionou porque os Estados Unidos estavam dispostos a sustentar, com recursos econômicos e garantias de segurança, os termos do acordo entre Egito e Israel ao longo de décadas. A diplomacia do JCPOA, em 2015, funcionou de modo limitado e desfez-se em 2018 precisamente porque faltou continuidade política nos garantidores ocidentais. Em ambos os casos, a mediação assumiu custos. Não foi gratuita, não foi performática, não foi reversível ao sabor de circunstâncias eleitorais sem consequências reputacionais profundas. Quem mediava sabia que estaria, em alguma medida, obrigado a sustentar o que ajudou a costurar.
A mediação chinesa, no formato que se desenha, opera em registro oposto. Ela não assume custos, não oferece garantias verificáveis, não submete os acordos a mecanismos de monitoramento independentes. Reproduz o estilo de gestão doméstica do Partido Comunista Chinês, no qual a opacidade é considerada virtude e a accountability é tratada como interferência externa indevida. Quem aceita esse tipo de mediação aceita, junto, a renúncia a qualquer mecanismo de verificação posterior, o que equivale, em termos práticos, a confiar exclusivamente na boa vontade das partes, recurso historicamente escasso em zonas de conflito armado.
O problema, para o BRICS como bloco, é que esse modelo de mediação acaba contaminando a credibilidade do agrupamento como um todo. Países como Brasil, Índia, África do Sul e Emirados, que têm interesses legítimos em preservar canais de diálogo com todas as partes, veem-se associados, por proximidade institucional, a posicionamentos que não necessariamente subscrevem. O Itamaraty, por exemplo, tem uma tradição diplomática construída sobre o princípio da solução pacífica de controvérsias e do respeito ao direito internacional. Ser arrastado para uma posição na qual o silêncio sobre o pedágio iraniano em Ormuz pareça endosso seria custoso para a reputação acumulada da diplomacia brasileira ao longo de décadas, e poderia comprometer iniciativas em curso em outros foros multilaterais relevantes.
A Índia, igualmente, encontra-se em posição delicada. Importadora de petróleo iraniano e simultaneamente parceira estratégica dos Estados Unidos no eixo Indo-Pacífico, Nova Délhi precisa calibrar com extrema precisão sua participação nas declarações do BRICS para não comprometer o diálogo bilateral com Washington nem o pacto tácito de não confronto direto com Pequim. A diplomacia indiana tem demonstrado destreza notável nesse equilíbrio, mas há limites estruturais para o quanto se pode preservar ambiguidade construtiva quando outros membros do bloco empurram, com vigor, a agenda para terrenos cada vez mais polarizados.
Há, ainda, uma dimensão jurídica que não pode ser negligenciada. O Direito Internacional Humanitário foi concebido como conjunto de balizas universais, aplicáveis independentemente da identidade do beligerante ou da simpatia política do observador. Quando uma potência mediadora aceita, por conveniência energética, que normas sobre liberdade de navegação sejam relativizadas, ela cria precedente. Precedentes, em direito internacional, têm efeito multiplicador. O que se tolera em Ormuz hoje pode ser invocado no Mar do Sul da China amanhã, no Mar Negro depois, no Estreito de Malaca em seguida. A erosão é sistêmica, e os primeiros a sofrer as consequências serão justamente os Estados de menor poder relativo, que dependem da previsibilidade das normas para compensar suas limitações de capacidade dura. Não há, nesse ponto, neutralidade possível. Quem cala, valida.
O cenário mais provável para as próximas semanas combina três elementos. Primeiro, Pequim continuará oferecendo bons ofícios discretos, sem compromisso público com qualquer fórmula específica de cessar-fogo, preservando margem de manobra para todas as direções. Segundo, o Irã utilizará o BRICS como vitrine para sustentar a narrativa de que não está isolado, mesmo enquanto sua economia interna se deteriora sob o peso da guerra e das sanções, com indicadores de inflação e desemprego que sugerem fadiga social crescente. Terceiro, os Estados Unidos oscilarão entre rejeitar propostas iranianas, conforme ocorreu nesta semana com a fala de Trump sobre o cessar-fogo em terapia intensiva, e sinalizar abertura para retomada de negociações, criando ambiguidade tática que pode ser confundida, pelos observadores menos atentos, com indecisão estratégica. Há, contudo, leitura mais sofisticada possível. Washington pode estar deliberadamente preservando margem de escalada controlada, condição típica de quem opera a partir de posição de força e prefere não fechar prematuramente o leque de opções.
Diante desse quadro, três considerações finais merecem registro. A primeira é que mediação sem custos não é mediação, é posicionamento disfarçado. A segunda é que o BRICS, na sua configuração atual, corre o risco de transformar-se em câmara de ressonância de interesses bilaterais de seus membros mais poderosos, em vez de funcionar como foro autêntico de coordenação multilateral. A terceira é que a defesa do regime jurídico internacional, com suas convenções sobre direito do mar, suas regras sobre liberdade de navegação, seus princípios sobre solução pacífica de controvérsias, segue sendo um interesse estratégico de primeira ordem para todos os países que não dispõem de capacidade militar para impor unilateralmente suas preferências. Curiosamente, ou talvez não, esse é o interesse que mais alinha o Brasil às potências marítimas tradicionais, ainda que o discurso oficial nem sempre torne isso explícito.
A tentação chinesa, em última análise, é a tentação de uma liderança internacional barata, sem os encargos da construção institucional e sem a responsabilidade pelos efeitos sistêmicos das próprias escolhas. Pode ser conveniente no curto prazo. Será, quase certamente, ruinosa no longo, inclusive para a própria China, que depende, mais do que admite publicamente, da estabilidade do ambiente que vem ajudando a corroer. Ormuz, por ora, é o palco. A peça em cartaz, contudo, fala de algo muito maior. Fala da própria arquitetura sobre a qual repousa, ainda, a possibilidade de uma ordem internacional minimamente previsível para as próximas décadas. E essa arquitetura, importa lembrar, não se sustenta sozinha. Ela exige defensores conscientes, dispostos a pagar o preço da previsibilidade, em lugar de aceitar, em silêncio, os dividendos enganosos da desordem administrada por quem se recusa a assinar embaixo do que propõe.
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