Há uma narrativa confortável que circula há décadas nos meios acadêmicos e em parte da imprensa brasileira. Segundo ela, o tráfico nasce da ausência do Estado, e o traficante é, no fundo, um filho da exclusão, um produto inevitável da miséria e do abandono.
Nessa leitura, a facção não seria propriamente um agressor, mas uma resposta orgânica à omissão estatal, quase uma forma rudimentar de organização social onde o poder público nunca chegou.
É uma teoria elegante. Tem a vantagem de transformar criminosos em vítimas e de dissolver a responsabilidade individual num caldo sociológico difuso. O único problema dessa teoria é que ela não sobrevive ao contato com a realidade. E a realidade acabou de bater à porta de oitocentas famílias na Pavuna.
No início de junho de 2026, homens armados com fuzis e vestidos com fardas semelhantes às da Polícia Militar entraram em dois condomínios do programa Minha Casa Minha Vida, na Rua Rio do Pau, a poucos metros de um dos acessos ao Complexo do Chapadão. Convocaram uma reunião e comunicaram, sem rodeios, que os prédios agora pertenciam ao Comando Vermelho.
A partir daquele momento, cada um dos oitocentos apartamentos pagaria uma taxa mensal de trezentos reais à facção. Os moradores ficaram obrigados a comprar gás e internet exclusivamente dos fornecedores ligados ao tráfico, mesmo havendo gás encanado disponível na região.
Os síndicos foram conduzidos ao quartel general no Complexo da Penha para tratar pessoalmente com Edgar Alves, o Doca, apontado como chefe da organização na área. A arrecadação estimada chega a duzentos e quarenta mil reais por mês. E a ameaça veio explícita. Quem atrasasse a taxa seria expulso de casa.
Vale deixar essa imagem assentar. Famílias contempladas por um programa habitacional federal, gente que trabalha, paga prestação e sonhava com a dignidade de um teto próprio, foram transformadas em arrecadação de uma quadrilha.
Não por um Estado ausente, mas por um poder armado muito presente, que chegou anunciando regras, cobrando tributo e ameaçando despejo. A pergunta que a narrativa romântica nunca responde é simples. Onde está, nessa cena, o defensor dos excluídos.
O argumento da ausência do Estado pressupõe que a facção ocupa um vazio e oferece, à sua maneira, alguma proteção em troca de lealdade. Talvez houvesse algo a discutir nessa tese se o tráfico se limitasse a vender droga a quem livremente a procura. Mas não é isso que se vê na Pavuna, em Jacarepaguá, no Terreirão do Recreio ou em qualquer das dezenas de territórios onde a facção avançou nos últimos anos.
O que se vê é um sistema de extorsão compulsória imposto sobre quem nada pediu. O morador não escolheu o gás mais caro. Foi obrigado. Não contratou a internet do tráfico. Foi proibido de contratar outra. Não aderiu a uma comunidade alternativa de proteção. Foi tributado sob a mira de um fuzil. Isso não é resposta à exclusão. É a própria exclusão, agora armada e cobrando mensalidade.
O detalhe das fardas semelhantes às da polícia é revelador, e merece ser lido com atenção. A facção não combate o símbolo do Estado. Ela o veste. Imita a autoridade legítima para exercer uma autoridade ilegítima. Não quer destruir a ideia de poder, quer monopolizá la em proveito próprio.
E quando se observa que esses criminosos passaram a copiar o modelo de negócios das milícias, monopolizando gás, internet, televisão a cabo e transporte, fica evidente que o objetivo nunca foi suprir uma carência social. Foi capturar um mercado cativo. O território não é uma comunidade a ser protegida. É um ativo a ser explorado.
Aqui está o ponto que a retórica romântica jamais encara de frente. As vítimas reais dessa lógica não são abstrações sociológicas. São pessoas concretas, e quase todas elas são pobres. É o trabalhador da Pavuna que verá trezentos reais sumirem do orçamento já apertado. É a família que comprará gás superfaturado para engordar o caixa do tráfico. É o morador que perderá o imóvel se não conseguir pagar a taxa imposta por quem deveria, segundo a teoria, defendê-lo.
A facção que supostamente representa os excluídos vive, na prática, de espremer os excluídos. Extorque o mais fraco, pune o que reclama, expulsa o que resiste. E o faz com requintes de crueldade que a própria semana documentou, como o caso das duas mulheres torturadas em São Gonçalo, espancadas, com os cabelos raspados e forçadas a desfilar pela comunidade pedindo desculpas ao tráfico.
Esse é o retrato verdadeiro da tal ordem alternativa. Não há contrato social nenhum. Há submissão sob coação. E quando a sociedade trata esse poder com indulgência, quando o ambiente intelectual insiste em explicar o algoz e esquecer a vítima, quem arca com o preço dessa generosidade mal endereçada é justamente o pobre que se queria proteger.
A leniência com a facção não é solidariedade com a periferia. É abandono da periferia em mãos de seus opressores. Há uma crueldade silenciosa em romantizar quem oprime o mais vulnerável, porque essa romantização desarma moralmente a única reação capaz de libertá lo.
É fácil teorizar sobre as raízes socioeconômicas do crime a partir de um bairro seguro, com gás encanado funcionando e internet contratada livremente. A distância produz uma espécie de anestesia moral. Vista de longe, a facção vira fenômeno, estrutura, sintoma. Vista de perto, da janela de quem mora na Estrada Rio do Pau, ela é o sujeito armado que entrou em casa e mandou pagar. Há um abismo entre essas duas perspectivas, e quase todo o debate público brasileiro habita o lado confortável desse abismo.
Quem precisa conviver com a realidade não tem o luxo da abstração. Para o morador da Pavuna, a discussão não é sobre as causas profundas da violência. É sobre como pagar a conta deste mês sem perder o teto.
A honestidade intelectual exige reconhecer que explicar não é justificar, e que entender o contexto social da criminalidade não pode significar suspender o juízo sobre quem comete o crime.
Quando a análise das causas se converte em desculpa para o agressor, ela deixa de ser ciência social e vira cumplicidade disfarçada de compaixão. O excluído que mais merece a nossa solidariedade não é o que empunha o fuzil. É o que se ajoelha diante dele.
O caso da Pavuna não é episódio isolado. Estudo do Instituto Fogo Cruzado em parceria com o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (GENI) da Universidade Federal Fluminense aponta o Comando Vermelho como o grupo armado que mais expandiu áreas de influência na Região Metropolitana do Rio nos últimos anos, avançando inclusive sobre territórios antes dominados por milícias.
Em Jacarepaguá, bastou pouco mais de um mês para a facção consolidar presença em cerca de cinquenta e cinco mil metros quadrados de uma área historicamente miliciana. No Recreio dos Bandeirantes, a guerra por território já produziu mortes de inocentes, incluindo uma biomédica grávida baleada dentro de um carro de aplicativo.
O que esses casos têm em comum é a direção do movimento. A facção não recua diante do abandono estatal. Ela avança onde encontra espaço, e o espaço que mais a alimenta é o da tolerância social, aquela que hesita em nomear o crime pelo que ele é.
Não por acaso, na mesma semana da invasão dos condomínios, entrou em vigor a medida do governo americano que classifica o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas.
Pode se debater o alcance prático e os efeitos colaterais dessa decisão, e há motivos legítimos para cautela. Mas há algo de simbólico no encontro das duas datas. Enquanto parte do debate brasileiro ainda discute se o traficante é vítima ou algoz, um observador externo olhou para os fatos e chamou a organização pelo nome que os fatos sugerem.
Reconhecer a natureza do que se enfrenta é o primeiro passo de qualquer reação séria. E nesse ponto, o diagnóstico de fora tem sido mais franco do que boa parte do diagnóstico de dentro.
Existe uma maneira simples de testar qualquer discurso que se diz defensor dos pobres. Basta perguntar de que lado ele fica quando o pobre é a vítima e o criminoso é o agressor. A retórica que romantiza a facção falha exatamente nesse teste.
Ela se comove com o sociólogo imaginário do tráfico e ignora a faxineira real que perde o teto. Defende o conceito abstrato do excluído e abandona o excluído de carne e osso quando ele aparece, trêmulo, na reunião em que doze homens armados anunciam que sua casa agora pertence ao Comando.
Estar ao lado dos excluídos, de verdade, é estar ao lado das oitocentas famílias da Pavuna. É reconhecer que elas têm direito a um Estado que as proteja, a uma polícia que as defenda e a uma ordem pública que não as deixe à mercê de quem cobra trezentos reais sob a mira de um fuzil.
A periferia não precisa de quem explique seus algozes. Precisa de quem a livre deles. E o primeiro passo para isso é abandonar de vez a ilusão confortável de que o opressor armado do pobre é, de alguma forma, seu representante. Ele nunca foi. A conta que ele cobra todo mês é a prova mais eloquente disso.
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