
“Décadas de missão, nenhuma paz, e o velho fantasma da Liga das Nações de volta”
Existe um destino pior do que o fracasso. É a irrelevância. O fracasso ao menos chama atenção, gera escândalo, exige resposta. A irrelevância é silenciosa. Ela chega devagar, quando as pessoas simplesmente param de se importar, param de financiar, param de levar a sério. E foi esse fantasma que pairou sobre o dia 29 de maio, quando o mundo parou por alguns instantes para lembrar daqueles que vestem o capacete azul.
É o Dia Internacional dos Mantenedores da Paz das Nações Unidas, uma data criada para honrar os homens e mulheres que deixam suas casas, suas famílias e muitas vezes suas próprias vidas em nome de um ideal que parece cada vez mais distante. São soldados, policiais e civis que se colocam entre fogos cruzados em regiões esquecidas pelo restante do planeta. Brasileiros estiveram entre eles em lugares como o Haiti e o Líbano. Merecem nosso respeito e nossa gratidão, sem ressalvas.
Mas honrar os peacekeepers exige também olhar com honestidade para a instituição que os envia. E o que se vê hoje não é animador. A data deste ano chegou acompanhada de números que doem. Segundo relatório do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, o Sipri, divulgado dias antes da celebração, o número de integrantes internacionais em operações de paz caiu para 78.633 ao final de 2025. É o menor patamar em pelo menos vinte e cinco anos. Uma queda de 17 por cento em apenas um ano e de quase metade desde 2016, quando havia mais de 153 mil pessoas mobilizadas.
A razão principal dessa sangria não é a falta de conflitos no mundo. Pelo contrário, eles se multiplicam. A razão é dinheiro. A ONU atravessa a sua mais frágil situação financeira em anos. O ano de 2024 fechou com 760 milhões de dólares não recolhidos dos países membros. Em 2025 a conta de contribuições não pagas chegou à casa dos bilhões. A menos de cinco semanas do fim do ano apenas 145 dos 193 Estados membros estavam com suas contribuições em dia. O próprio secretário-geral António Guterres classificou os atrasos como inaceitáveis e propôs cortar 15 por cento do orçamento regular para o próximo ano.
Por trás dos números frios existe uma verdade incômoda. Os países estão pagando menos porque acreditam menos. E acreditam menos porque a organização vem entregando pouco. Essa é a parte que muitos preferem não dizer em voz alta. As missões de paz se transformaram em estruturas permanentes que se arrastam por décadas sem produzir os resultados que justificaram sua criação. O que deveria ser uma intervenção temporária virou presença crônica, quase paisagem.
Tome o caso do Sudão do Sul. A UNMISS está lá desde 2011, quando o país nasceu carregado de esperança. Mais de uma década depois, a missão segue no lugar enquanto o país beira o retorno à guerra civil plena. Em fevereiro deste ano o Conselho de Segurança ouviu que a nação mais jovem do mundo está à beira do colapso. Com a crise financeira, a UNMISS foi obrigada a cortar 15 por cento de seus gastos, fechar bases e reduzir o apoio aéreo. O resultado prático é assustador. Os próprios oficiais da ONU admitem que os cortes criaram pontos cegos, limitaram a capacidade de intervenção e enfraqueceram os sistemas de alerta. Em outras palavras, justamente onde os civis mais precisam de proteção, ela está minguando.
O Líbano conta uma história ainda mais simbólica. A UNIFIL foi criada em 1978 para supervisionar a retirada de tropas israelenses do sul do país. Quase cinco décadas se passaram. Cinco décadas. E em agosto de 2025 o Conselho de Segurança votou de forma unânime pelo encerramento da força até o fim de 2026, cedendo à pressão dos Estados Unidos e de Israel. Quase meio século de presença ininterrupta e o problema que motivou a missão continua de pé. A fronteira segue tensa, a guerra entre Israel e o Hezbollah voltou a explodir, e a pergunta que fica é constrangedora. Para que serviu tanto tempo, tanto dinheiro e tantas vidas se a paz nunca veio de verdade?
Esse é o ponto que não pode ser varrido para baixo do tapete. Uma missão de paz que dura quarenta e oito anos não é uma missão de paz. É a confissão silenciosa de um fracasso que ninguém teve coragem de declarar. E quando os países que pagam a conta percebem isso, eles simplesmente param de pagar. Foi exatamente o que aconteceu. Os Estados Unidos sob o governo Trump cortaram financiamento de diversos órgãos da ONU e desestimularam o multilateralismo. China e Europa, segundo o Sipri, se mostraram incapazes ou relutantes em sustentar o sistema. A Rússia, por sua vez, atua por conta própria em conflitos africanos. As grandes potências, uma a uma, foram dando as costas.
E aqui vale recuar no tempo para encontrar um espelho perturbador. A Liga das Nações nasceu em 1920 com a promessa de evitar que a tragédia da Primeira Guerra Mundial se repetisse. Era a grande esperança de uma humanidade exausta. Mas a Liga falhou onde mais importava. Não conseguiu impedir a invasão da Manchúria pelo Japão, não conteve a Itália de Mussolini na Etiópia, não freou a Alemanha de Hitler. E, talvez o mais revelador, foi sendo esvaziada por dentro. Os Estados Unidos jamais aderiram a ela. Japão e Alemanha se retiraram. A Itália saiu depois. Quando as potências de peso abandonaram o barco, ele afundou. A Segunda Guerra Mundial foi a certidão de óbito de uma instituição que já estava morta por dentro muito antes de o primeiro tiro ser disparado.
É possível traçar um paralelo com a ONU de hoje? A pergunta é desconfortável, mas honesta. Os sinais são parecidos demais para serem ignorados. Assim como a Liga, a ONU enfrenta o esvaziamento financeiro, a retirada de apoio das grandes potências e a perda de credibilidade diante de fracassos repetidos. O diretor do programa de operações de paz do Sipri usou uma expressão que merece reflexão. Ele falou em uma tempestade perfeita de fatores financeiros, políticos e geopolíticos que pode levar à quase total marginalização de instituições como as Nações Unidas. Marginalização é a palavra que antecede a irrelevância. E a irrelevância foi exatamente o destino da Liga das Nações.
Existe, porém, uma diferença que precisa ser dita em favor da verdade. A ONU é muito mais ampla e enraizada do que a Liga jamais foi. Ela vacina crianças, alimenta famintos, abriga refugiados, coordena respostas a desastres. Sua estrutura é gigantesca e sua presença capilar. Derrubá-la por completo seria muito mais difícil. Mas a história ensina que instituições não morrem apenas quando são destruídas. Elas morrem também quando deixam de importar. Quando ninguém mais leva suas decisões a sério. Quando se tornam fóruns de discurso vazio enquanto as guerras seguem seu curso indiferentes.
E é justamente aqui que o destino dos peacekeepers se cruza com o destino da própria organização. Cada base fechada no Sudão do Sul por falta de verba é um vilarejo desprotegido. Cada missão encerrada sem resolver o problema que a originou é um tijolo retirado da credibilidade da ONU. Os capacetes azuis são ao mesmo tempo o rosto mais nobre e o sintoma mais visível da crise. Eles continuam arriscando tudo enquanto a estrutura que os sustenta range sob o peso da descrença mundial.
Honrar esses homens e mulheres no dia 29 de maio não pode ser apenas um gesto protocolar. A verdadeira homenagem seria garantir que o sacrifício deles tenha sentido. Que não sejam enviados para conflitos eternos apenas para administrar a miséria em vez de encerrá-la. Que a paz que carregam no nome seja de fato alcançável e não uma ficção burocrática mantida por inércia. Eles merecem uma organização à altura da coragem que demonstram.
A Liga das Nações nos deixou uma lição que custou sessenta milhões de vidas na Segunda Guerra. A lição é que boas intenções não bastam. Uma instituição internacional só sobrevive enquanto for capaz de entregar resultados e enquanto as grandes potências enxergarem nela uma utilidade real. No momento em que essas duas condições falham, o que resta é uma carcaça respeitável e impotente.
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