A Fusão de Domínios e a Guerra Híbrida Redesenhando o Conflito do Século XXI

A guerra sempre se transformou ao longo do tempo. Das campanhas napoleônicas aos conflitos industrializados do século XX, cada época produziu sua própria linguagem de violência organizada. As tecnologias disponíveis e as ambições dos atores envolvidos moldaram essas formas. No início do século XXI, porém, algo novo desafia as categorias que sempre usamos para pensar os assuntos militares. Não estamos diante de novos armamentos ou táticas isoladas. Estamos diante de uma reconfiguração profunda dos próprios domínios em que a guerra acontece e de como eles se entrelaçam.

O conceito de guerra híbrida, discutido desde os anos 2000, ganhou urgência renovada nos conflitos atuais. Na definição mais comum, o termo descreve a combinação deliberada de forças militares convencionais com meios irregulares, cibernéticos, econômicos e informacionais para alcançar objetivos estratégicos. Essa definição, porém, começa a ceder. O que observamos nos teatros de operação mais recentes é algo qualitativamente distinto. Não é a justaposição de domínios separados, mas sua convergência orgânica em uma arquitetura integrada de conflito.

A guerra na Ucrânia tornou-se o laboratório mais rico para entender esse fenômeno. Desde fevereiro de 2022, o conflito mostrou como operações no espectro eletromagnético, ataques cibernéticos a infraestruturas críticas, campanhas de desinformação em escala global, o uso massivo de drones de origem comercial e operações cinéticas convencionais não funcionam como camadas independentes de uma estratégia. Eles atuam como elementos de um sistema integrado em que cada domínio potencializa e é potencializado pelos demais. A destruição de sistemas de radar russos por agentes cibernéticos não foi um episódio isolado. Foi a condição que permitiu ataques subsequentes com drones e mísseis de cruzeiro. A lógica de convergência, nesse caso, é estrutural.

O Comando Aliado de Transformação da OTAN tem descrito esse fenômeno como uma mudança de paradigma que vai além das operações de informação tradicionais. Em documento produzido pelo organismo em 2025, o almirante Pierre Vandier, então Comandante Supremo Aliado para Transformação, alertou que a guerra cognitiva representa hoje uma ameaça existencial à coesão das alianças ocidentais. A estimativa de que a Rússia desembolsa anualmente até dois bilhões de dólares em operações cognitivas, incluindo campanhas de desinformação, redes de bots e manipulação psicológica direcionada, ilustra a seriedade com que o domínio mental passou a ser tratado como terreno de conflito (Vandier, 2025). O cérebro humano, nessa nova arquitetura, não é apenas alvo: é também arma e vetor.

O que confere originalidade ao momento presente é precisamente a velocidade e a profundidade com que os domínios se integram. A guerra eletrônica, que por décadas operou como disciplina relativamente autônoma, tornou-se inseparável das operações cibernéticas. O espaço exterior, outrora reserva exclusiva de superpotências com capacidades satelitais sofisticadas, passou a ser disputado por atores estatais e não estatais que empregam constelações de satélites comerciais para fins de inteligência, comunicação e orientação de munições. O domínio cognitivo, por sua vez, alimenta-se dos dados produzidos nos demais domínios para construir narrativas que minam a vontade política do adversário antes que um único disparo seja efetuado.

Pesquisadores da Agência de Pesquisa em Defesa da Suécia publicaram em 2026, na revista Frontiers in Big Data, uma revisão sistemática que identificou exatamente esse problema: a ambiguidade conceitual em torno da guerra cognitiva reflete não apenas a novidade do fenômeno, mas a dificuldade das comunidades acadêmica e militar de acompanharem a velocidade da prática (Nilsson, Haga e Hellström, 2026). A guerra avança mais rápido do que os conceitos que tentam descrevê-la.

A integração dos domínios não ocorre de maneira espontânea. Ela exige arquiteturas de comando e controle que possam processar informações de múltiplas fontes em tempo real e traduzir essa fusão em decisões operacionais coerentes. A inteligência artificial emerge aqui não como um fator tecnológico adicional, mas como o elemento que torna possível a convergência em seu sentido pleno. Sem capacidade de processamento automatizado de dados provenientes de sensores terrestres, marítimos, aéreos, espaciais e cibernéticos, a convergência multidomínio permanece aspiracional. Com ela, torna-se operacionalmente viável em janelas de tempo que comprimem o ciclo de decisão do adversário a ponto de torná-lo disfuncional.

O Centro de Excelência em Defesa Cibernética Cooperativa da OTAN, sediado em Tallinn, publicou em abril de 2026 um estudo sobre os fundamentos ontológicos da guerra cognitiva, elaborado em parceria com pesquisadores ucranianos. O documento argumenta que a guerra cognitiva não pode ser compreendida apenas como uma variante das operações de informação, mas como um domínio com ontologia própria, em que os alvos são os processos mentais que sustentam a tomada de decisão coletiva (Korobeynikov, Davydiuk e Mokhor, 2026). Essa distinção tem implicações práticas: defende-se não mais um sistema de comunicações ou uma rede de computadores, mas a própria racionalidade institucional de um Estado.

A convergência entre o ciberespaço e o domínio cognitivo é talvez a mais disruptiva das fusões em curso. Redes sociais e plataformas de comunicação digital não são apenas meios de difusão de conteúdo: são infraestruturas estratégicas que moldam percepções, fragmentam consensos e amplificam divisões internas em sociedades que são alvo de campanhas de influência. A militarização dessas plataformas por atores estatais adversários representa um desafio para o qual as democracias liberais ainda não encontraram resposta institucional adequada. A tensão entre a proteção da liberdade de expressão e a necessidade de combater operações de influência estrangeira configura um dilema genuíno que os regimes autocráticos simplesmente não enfrentam.

A escalada entre Estados Unidos, Israel e Irã, analisada em 2026 pelo Instituto Espanhol de Estudos Estratégicos, ilustra como essa convergência opera em conflitos de alta intensidade entre potências regionais e globais. O confronto entre Israel e as forças iranianas e seus aliados proxy não se reduziu a trocas de mísseis e drones. Envolveu ataques cibernéticos a sistemas de controle de infraestrutura crítica, campanhas de desinformação direcionadas a populações civis, operações no espectro eletromagnético para degradar sistemas de defesa aérea e pressão econômica coordenada. O resultado foi um conflito que, embora intenso, permaneceu abaixo do limiar de uma guerra convencional plena, precisamente porque a multiplicidade de domínios ofereceu meios de escalada e de-escalada sem os constrangimentos da confrontação cinética direta (Galán Cordero, 2026).

Essa gestão da escalada por meio da convergência multidomínio representa talvez a inovação estratégica mais significativa do período. O conflito híbrido contemporâneo não visa necessariamente à destruição das capacidades militares do adversário, mas à degradação de sua vontade política, à corrosão de sua legitimidade interna e ao esgotamento de sua coesão institucional. Nesse sentido, o campo de batalha se expande para incluir a opinião pública, os mercados financeiros, as infraestruturas digitais e os processos eleitorais. A distinção entre paz e guerra, já questionada pela doutrina híbrida anterior, dissolve-se quase completamente.

As respostas ocidentais a esse desafio têm avançado, embora de forma ainda fragmentada. A OTAN reconheceu formalmente o espaço cibernético e o espaço exterior como domínios operacionais em adição aos tradicionais. O debate sobre o reconhecimento do domínio cognitivo como quinto domínio formal da Aliança ganhou intensidade nos últimos dois anos, impulsionado pelas evidências acumuladas na Ucrânia e pelo Relatório de Pesquisa do Cientista-Chefe da organização sobre guerra cognitiva, publicado em 2025. A incorporação formal desse domínio implicaria não apenas ajustes doutrinários, mas a criação de estruturas de comando, capacidades de atribuição e, eventualmente, de mecanismos de defesa coletiva aplicáveis a ataques cognitivos.

O desafio para as democracias liberais é de natureza distinta daquele enfrentado por regimes autoritários. A China e a Rússia operam com arquiteturas de informação estatalmente controladas que facilitam tanto a proteção interna quanto a projeção ofensiva. As sociedades abertas, em contraste, precisam desenvolver resiliência sem comprometer os valores que constituem sua razão de ser. Investimentos em literacia midiática, fortalecimento de organismos independentes de checagem de fatos, cooperação entre governos e plataformas privadas e o desenvolvimento de capacidades de atribuição para operações de influência estrangeira figuram entre as respostas mais promissoras nesse campo.

A convergência entre domínios representa, portanto, não apenas uma nova categoria de guerra, mas um desafio civilizatório para as sociedades que se organizam em torno da deliberação racional e do consentimento informado. Defender esses valores no ambiente estratégico do século XXI exige que os mesmos instrumentos que tornaram possível a esfera pública democrática sejam objeto de proteção ativa. A guerra híbrida convergente não mira tanques nem aeronaves: mira a capacidade coletiva de discernir a realidade e de agir em consequência. Nesse sentido, a fronteira entre segurança nacional e saúde democrática nunca foi tão tênue, nem a necessidade de compreendê-la tão urgente.


Referências

GALÁN CORDERO, Carlos. Conflicto multidominio y guerra híbrida en el siglo XXI: del caso de Ucrania a la escalada entre Estados Unidos, Israel e Irán. Madrid: Instituto Español de Estudios Estratégicos, 2026.

KOROBEYNIKOV, Fedir; DAVYDIUK, Andrii; MOKHOR, Volodymyr. Ontological Foundations of Cognitive Warfare. Tallinn: NATO CCDCOE, 2026.

NILSSON, Per-Erik; HAGA, Andreas; HELLSTRÖM, Kristina. Definitional ambiguity in cognitive warfare: a critical and systematic conceptual review through ideal-type analysis. Frontiers in Big Data, v. 9, maio 2026.

VANDIER, Pierre. Cognitive Warfare: The Battlespace of the Mind. Norfolk: NATO Joint Warfare Centre, 2025.


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Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Sobre o autor
Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Professor

Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras, especialista em Operações Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e possui o Curso de Altos Estudos Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional pela Universidade de Nebrija/Espanha. É Analista de Operações Psicológicas (Canadá), possui o Curso de Staff de Operações Psicológicas (Canadá), especialista em Operações de Informação (Canadá) E especialista em Coordenação Civil-MIlitar/CIMIC (Canadá). Possui MBA em Segurança, Defesa, Geopolítica e Relações Internacionais pelo Instituto Venturo/ADESG. Integrou a Missão de Administração Transitória das Nações Unidas no Timor Leste/UNTAET e foi Oficial de Operações da Força Interina das Nações Unidas no Líbano/UNIFILTrabalhou como Oficial de Ligação junto ao Centro de Treinamento e Doutrina do Exército Canadense. 

  • Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza

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Miguel Angelo 26/07/2026 16:50

Na perspectiva do pensamento militar brasileiro, os Domínios estão inscritos na própria definição de Ambiente Operacional. Entendido como a transversalidade existente entre Domínios e Dimensões. Nesta perspectiva, o confronto ocorre nos Domínios terrestre, marítimo, aéreo, espacial e ciberespaço (cibernético, eletromagnético e cognitivo) para a conquista de objetivos nas Dimensões Física, Humana e Informacional.

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