A engenharia silenciosa do consenso, think tanks, a Janela de Overton e a nova fronteira da guerra cognitiva

Existe uma ideia hoje aceita como razoável no debate internacional que, há duas décadas, teria sido considerada extravagante, radical ou simplesmente impensável. Esse deslocamento raramente acontece por acaso. Por trás da mudança daquilo que uma sociedade considera aceitável existe um trabalho paciente, técnico e frequentemente invisível de instituições especializadas em moldar percepções. Compreender esse mecanismo tornou-se indispensável em um mundo onde a disputa pelo poder não se trava apenas com armas, mas também com narrativas, dados e enquadramentos interpretativos.

O ponto de partida dessa discussão é um conceito criado nos anos 1990 pelo analista norte-americano Joseph Overton. Ele observou que, em qualquer tema de política pública, existe um intervalo de posições consideradas aceitáveis pela maioria da população em dado momento. Ideias dentro desse intervalo podem ser defendidas por autoridades sem custo político. Ideias fora dele parecem impensáveis. O detalhe decisivo, segundo os próprios formuladores do modelo, é que essa janela pode ser deliberadamente deslocada.

Segundo o Mackinac Center, instituição que sistematizou a formulação de Overton, o papel de um think tank é justamente defender ideias politicamente impossíveis até que se tornem politicamente inevitáveis. Como sintetizou Nason (2023), a pesquisa, a análise e o debate produzidos por essas instituições servem para deslocar a fronteira do aceitável. Não são os políticos que movem primeiro a janela, mas os intelectuais e as organizações que operam no terreno das ideias, preparando o campo antes que qualquer decisão formal seja tomada.

Essa constatação não deve ser lida de forma conspiratória. Think tanks cumprem funções legítimas e muitas vezes valiosas para o debate público. Eles reúnem especialistas, produzem diagnósticos rigorosos e oferecem alternativas a governos frequentemente ocupados demais para refletir sobre o longo prazo. Foi assim, por exemplo, no debate sobre a ampliação da Aliança Atlântica após o fim da Guerra Fria. Como registrou Asmus (2003), institutos norte-americanos desempenharam papel decisivo em reformular o senso comum estratégico e construir apoio à expansão da OTAN rumo ao Leste Europeu.

O episódio é revelador porque mostra como uma ideia inicialmente cercada de ceticismo pode se converter em consenso ocidental sólido. No começo dos anos 1990, ampliar a Aliança parecia arriscado e desnecessário a muitos formuladores. Poucos anos depois, tornou-se um pilar da arquitetura de segurança europeia. O trabalho intelectual que sustentou essa transição foi conduzido, em boa medida, fora dos gabinetes oficiais, em ambientes que combinavam prestígio acadêmico e proximidade com o poder.

A questão que se impõe é como distinguir a legítima batalha de ideias daquilo que assume contornos de manipulação. A resposta passa por três critérios básicos. O primeiro é a transparência do financiamento, pois uma instituição que oculta quem a sustenta perde credibilidade. O segundo é a honestidade metodológica, isto é, o compromisso com a evidência em vez do apelo puramente emocional. O terceiro é a intenção, elemento mais difícil de aferir, mas perceptível quando uma narrativa é coordenada artificialmente entre fontes que se apresentam como independentes.

É nesse ponto que o debate se conecta a um conceito mais recente e mais amplo, o da guerra cognitiva. A OTAN vem desenvolvendo, por meio de seu Comando Aliado de Transformação, um marco conceitual dedicado ao tema. Em documento divulgado em julho de 2024, a organização descreveu a guerra cognitiva como um esforço para minar a confiança pública por meio de desinformação e retórica confrontacional, com o objetivo de semear discórdia e enfraquecer a capacidade de defesa da Aliança.

A definição adotada pela Aliança é ainda mais reveladora quando examinada de perto. Segundo a própria organização, a guerra cognitiva não é o meio pelo qual se combate, mas o combate em si. O cérebro passa a ser simultaneamente o alvo e a arma na disputa pela superioridade cognitiva. O objetivo, nessa leitura, é atacar e degradar a racionalidade do adversário, explorando vulnerabilidades psicológicas para provocar um enfraquecimento sistêmico das sociedades visadas.

A diferença essencial em relação à propaganda tradicional está no foco. A guerra informacional clássica busca controlar aquilo que as pessoas pensam sobre determinado assunto. A guerra cognitiva ambiciona algo mais profundo, que é influenciar o modo como as pessoas pensam, os critérios que utilizam para julgar, as emoções que mobilizam e a própria confiança que depositam nas fontes de informação. Não se trata apenas de inserir uma mentira, mas de corroer a capacidade coletiva de distinguir o verdadeiro do falso.

Os exemplos citados pela própria Aliança ajudam a compreender o fenômeno. A campanha russa de operações informacionais durante a guerra na Ucrânia buscou responsabilizar Kiev pelo conflito, combinando notícias fabricadas e manipulação de percepções para influenciar a opinião pública internacional e minar a confiança nas fontes abertas de informação. Trata-se de uma estratégia deliberada, sustentada por tecnologia e coordenação, cujo efeito pretendido é a paralisia decisória das democracias.

A China, tratada pela OTAN como competidora estratégica, oferece outra abordagem do mesmo fenômeno. Pequim descreve a guerra cognitiva como o uso combinado de opinião pública, operações psicológicas e influência jurídica para alcançar a vitória sem necessariamente recorrer ao confronto militar direto. Essa incorporação da chamada guerra jurídica, ou lawfare, amplia consideravelmente o campo de batalha, uma vez que passa a atingir instituições, normas e o sentimento de comunidades inteiras, incluindo civis e não combatentes.

É precisamente aqui que a ponte entre os dois conceitos se torna evidente. Se a guerra cognitiva é a disputa contínua pela percepção coletiva, a manipulação da Janela de Overton funciona como um de seus instrumentos de longo prazo. Enquanto operações de desinformação produzem efeitos imediatos, o deslocamento paciente da fronteira do aceitável opera em escala de anos ou décadas, preparando o terreno perceptivo para que decisões futuras pareçam consensuais, naturais e até inevitáveis.

Um estudo publicado por Deppe e Schaal (2024) analisou o conceito da OTAN a partir da ciência política e destacou justamente a natureza interdisciplinar do fenômeno, que exige aproximar a pesquisa militar da civil. A guerra cognitiva não se limita ao campo de batalha, pois abrange os processos políticos, o funcionamento das instituições e a integridade do debate democrático. Nesse ambiente ampliado, os produtores de ideias tornam-se peças de um tabuleiro estratégico mais vasto.

Convém, no entanto, resistir ao determinismo fácil. Nem todo deslocamento de opinião é resultado de manipulação orquestrada. Movimentos sociais autênticos, mudanças geracionais e a própria evolução dos valores produzem transformações genuínas naquilo que uma sociedade considera aceitável. Confundir toda mudança de consenso com guerra cognitiva seria um erro analítico grave, além de fornecer munição retórica justamente aos regimes autoritários que se beneficiam do ceticismo generalizado.

A distinção decisiva reside na origem e na intenção. Deslocamentos orgânicos emergem do debate livre, da persuasão aberta e da confrontação honesta de argumentos. A guerra cognitiva, ao contrário, prospera na opacidade, na coordenação disfarçada e na exploração deliberada de vieses. As sociedades abertas enfrentam aqui um dilema estrutural, pois sua própria liberdade de circulação de informação as torna mais vulneráveis do que os regimes fechados que promovem esse tipo de ataque.

Um alerta adicional merece registro. O caso das ações recentes que redefiniram normas internacionais, analisado pelo Atlas Institute for International Affairs (2026), mostra que a Janela de Overton também se move no campo da política externa, alterando aquilo que se considera comportamento estatal legítimo. Isso impõe às democracias ocidentais a responsabilidade de defender seus valores fundadores, sob pena de verem princípios como soberania e uso proporcional da força serem relativizados por adversários que operam sem qualquer escrúpulo normativo.

A resposta a esse desafio não passa pela censura nem pela desconfiança paralisante. Passa pela construção do que a OTAN denomina resiliência cognitiva, isto é, a capacidade de indivíduos e instituições resistirem à manipulação sem abrir mão da abertura que caracteriza as sociedades livres. Essa resiliência se constrói com educação, com pensamento crítico e com a valorização de fontes que demonstrem compromisso verificável com a verdade.

Do ponto de vista do cidadão, algumas perguntas funcionam como bússola diante de qualquer campanha de ideias. Quem financia a fonte que apresenta determinada tese. A posição descrita como moderada está sendo definida por contraste com um extremo artificialmente construído. Existe coordenação suspeita entre fontes que se dizem independentes. E, por fim, o apelo se dirige à evidência ou explora sobretudo a emoção e a identidade. Essas indagações não eliminam o risco, mas reduzem sua eficácia.

A defesa das democracias ocidentais nesse novo ambiente depende de uma cidadania informada e cética na medida certa. Reconhecer que a percepção se tornou um campo de disputa não significa render-se ao relativismo, mas assumir a responsabilidade de proteger a integridade do próprio julgamento. A soberania mental emerge, assim, como uma das questões cívicas mais urgentes do nosso tempo, tão relevante quanto a defesa das fronteiras físicas.

Em última análise, compreender como think tanks deslocam a Janela de Overton e como esse processo se articula à guerra cognitiva é menos um convite à paranoia e mais um chamado ao discernimento. As sociedades que souberem cultivar cidadãos capazes de distinguir a persuasão legítima da manipulação disfarçada estarão mais bem preparadas para preservar tanto sua liberdade quanto sua segurança diante de adversários que já entenderam que a mente humana se tornou o terreno decisivo da competição internacional.


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Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Sobre o autor
Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Professor

Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras, especialista em Operações Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e possui o Curso de Altos Estudos Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional pela Universidade de Nebrija/Espanha. É Analista de Operações Psicológicas (Canadá), possui o Curso de Staff de Operações Psicológicas (Canadá), especialista em Operações de Informação (Canadá) E especialista em Coordenação Civil-MIlitar/CIMIC (Canadá). Possui MBA em Segurança, Defesa, Geopolítica e Relações Internacionais pelo Instituto Venturo/ADESG. Integrou a Missão de Administração Transitória das Nações Unidas no Timor Leste/UNTAET e foi Oficial de Operações da Força Interina das Nações Unidas no Líbano/UNIFILTrabalhou como Oficial de Ligação junto ao Centro de Treinamento e Doutrina do Exército Canadense. 

  • Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza

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