Quando a Próxima Catástrofe Chegar, Estaremos Preparados?

Nos último dias ventos superiores a 120 quilômetros por hora atravessaram o interior de São Paulo e o litoral do Sudeste. Torres de energia caíram, árvores centenárias foram arrancadas e hospitais operaram no limite de sua capacidade.

Em 2024, o Rio Grande do Sul viveu a maior catástrofe climática de sua história, com a imensa maioria de seus municípios em situação de emergência. Dois eventos distintos, uma mesma lição, os desastres de grande magnitude deixaram de ser exceção e passaram a ser recorrência.

Diante desse novo normal, uma constatação técnica se impõe, e ela precisa ser dita sem alarmismo e sem partidarismo. O Brasil ainda não construiu, de forma plena, a cultura de preparação que eventos dessa escala exigem.

Reconhecer isso não é acusar ninguém. É o primeiro passo de qualquer boa gestão de risco, o diagnóstico honesto. E, mais importante, é a porta de entrada para as soluções que já existem, funcionam e podem ser implementadas.

Falo a partir da experiência. Atuei como enfermeira operativa em ambiente militar, formei profissionais em cursos de emergência e coordenei setores de medicina operativa. Aprendi que, no atendimento a desastres, a diferença entre o caos e a resposta ordenada tem um nome, doutrina.

Doutrina é o conjunto de procedimentos padronizados, treinados de forma exaustiva, que permite a uma equipe agir de modo coordenado mesmo sob estresse extremo. Ela transforma o improviso em método e substitui a sorte pela previsibilidade.

O ambiente militar brasileiro domina bem esse conceito. As Forças Armadas possuem, na medicina operativa, um acervo doutrinário sólido, testado em operações reais e em missões humanitárias. O desafio, e a oportunidade, está em fazer esse conhecimento transbordar para a rede civil.

A medicina operativa parte de um princípio simples. Nas primeiras horas de um desastre, quem salva vidas é quem já está no local, não o socorro que ainda está a caminho. Por isso, a preparação precisa ser distribuída, não concentrada.

Essa lógica se traduz em competências concretas. A primeira delas é a triagem de múltiplas vítimas, técnica que permite classificar feridos por gravidade e definir a ordem de atendimento quando o número de pacientes supera a capacidade de resposta imediata.

A triagem bem executada aumenta o número de sobreviventes de forma comprovada. Ela exige treino repetido, pois a decisão precisa ser tomada em segundos, sob pressão psicológica intensa e muitas vezes em ambiente insalubre.

A segunda competência é o controle de hemorragias massivas. Protocolos nascidos em ambiente de combate, como o uso correto do torniquete e a contenção de sangramentos graves, migraram para o socorro civil em todo o mundo desenvolvido, reduzindo drasticamente a mortalidade evitável.

A terceira é a continuidade assistencial em ambiente degradado. Significa manter o atendimento funcionando quando faltam energia, água e comunicação, cenário exato vivido pelos hospitais paulistas em julho de 2026, alguns deles danificados pela própria tempestade.

Essas competências não são exóticas. Elas compõem a formação padrão de equipes de emergência em países que enfrentam desastres com frequência, e podem ser incorporadas à realidade brasileira por meio de caminhos objetivos.

O primeiro caminho é a inclusão da medicina e da enfermagem operativa na formação regular dos profissionais de saúde. A graduação forma excelentes clínicos, mas dedica pouco espaço ao atendimento em cenário de catástrofe, lacuna que a atualização curricular pode preencher.

O segundo caminho é a realização de simulados periódicos e realistas nas unidades de saúde. Simular um evento de múltiplas vítimas, um blecaute prolongado ou o isolamento de um hospital revela fragilidades antes que a emergência real as revele da pior forma.

Os simulados têm baixo custo relativo e retorno altíssimo. Eles treinam a coordenação, testam a comunicação entre equipes e transformam planos de papel em memória muscular, que é o que de fato funciona quando o alarme dispara.

O terceiro caminho é a construção de planos de contingência vivos. Não basta ter o documento arquivado para cumprir exigência formal. O plano precisa ser conhecido por todos, revisado com frequência e ajustado a cada exercício realizado.

O quarto caminho é a integração entre os mundos civil e militar. O conhecimento operativo acumulado pelas Forças Armadas pode ser compartilhado com a rede pública de saúde e com os órgãos de proteção e defesa civil, num intercâmbio que beneficia toda a sociedade.

O quinto caminho, talvez o mais negligenciado, é a preparação da própria população. Em qualquer desastre, o primeiro socorrista é o vizinho, o familiar, o transeunte. Ensinar noções básicas de primeiros socorros e de autoproteção multiplica a capacidade de resposta de forma exponencial.

Vale observar que o Brasil já possui os instrumentos legais para essa agenda. O arcabouço normativo de proteção e defesa civil existe e é sólido no papel. O desafio, comum a muitas nações, está em converter a norma escrita em prática cotidiana e treinada.

A experiência internacional oferece modelos valiosos. Israel, país que convive com emergências de múltiplas vítimas, desenvolveu um dos sistemas de resposta pré-hospitalar mais ágeis do planeta, capaz de mobilizar equipes treinadas em poucos minutos.

Os Estados Unidos, por meio de protocolos como o Tactical Combat Casualty Care, sistematizaram o atendimento sob condições extremas e o exportaram a nações aliadas, elevando o padrão global de socorro em catástrofes e atentados.

Esses modelos não precisam ser copiados de forma acrítica. Eles servem de referência, de ponto de partida para adaptações que respeitem a realidade brasileira, sua extensão territorial e a diversidade de riscos que enfrentamos.

Há quem argumente que investir em preparação para desastres é dispendioso diante de tantas outras urgências. O contraponto merece consideração honesta, os recursos são finitos e as prioridades competem entre si.

A resposta, porém, é que a prevenção custa infinitamente menos que a reconstrução. Cada real investido em treino e doutrina economiza múltiplos em reconstrução, em internações evitáveis e, sobretudo, em vidas que não precisariam ter sido perdidas.

Segundo Freitas e Barcellos (2024), a gestão de desastres precisa migrar de uma postura reativa, centrada no socorro após a tragédia, para uma cultura permanente de prevenção e preparação. A lição, extraída da própria experiência recente, é clara e aproveitável.

A boa notícia é que o Brasil tem tudo para dar esse salto. Possui profissionais de saúde dedicados, uma tradição militar respeitada em medicina operativa e uma sociedade solidária que se mobiliza a cada tragédia. Falta organizar essa energia antes que o desastre chegue, não depois.

Preparação não é pessimismo. É a forma mais concreta de otimismo, a que se traduz em ação. Preparar-se é acreditar que podemos reduzir o sofrimento evitável e proteger quem mais precisa nos momentos de maior vulnerabilidade.

O clima extremo continuará a nos desafiar, disso não há dúvida. A pergunta que realmente importa não é se o próximo desastre virá, mas se ele encontrará equipes treinadas e cidadãos preparados, ou apenas boa vontade improvisada.

A resposta a essa pergunta está sendo escrita agora, nas salas de aula, nos exercícios de simulação e nas decisões de gestão que antecedem qualquer emergência. Treinar antes é a diferença entre lamentar perdas e celebrar vidas salvas.

Coragem não substitui método, e boa intenção não ressuscita ninguém. A preparação, sim, salva. Essa é a doutrina que o presente nos cobra e que o futuro certamente agradecerá.


Referências

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 10520: informação e documentação: citações em documentos: apresentação. Rio de Janeiro, 2023.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6022: informação e documentação: artigo em publicação periódica científica impressa: apresentação. Rio de Janeiro, 2018.

FREITAS, Carlos Machado de; BARCELLOS, Christovam. Desastre no Rio Grande do Sul, Brasil, crise climática e desafios dos novos tempos. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, 2024.


Aprofunde seu conhecimento sobre o tema com estas recomendações exclusivas da Amazon Brasil.

Guia prático e ilustrado, escrito por dois médicos renomados, para que qualquer pessoa saiba agir nos primeiros minutos de uma emergência. O primeiro socorrista, afinal, é sempre quem está mais perto.

Compre aqui

 

 

 

 

 

 

 

A referência nacional sobre socorro em enchentes, deslizamentos e desastres de grande escala. Indispensável para quem quer sair do improviso e dominar o método.

Compre aqui

 

 

 

 

 

Protocolos internacionais adaptados à realidade brasileira, com foco em decisão rápida sob pressão. Excelente ponte entre a teoria e a linha de frente.

Compre aqui

 

 

 

 

 

 


 

Enfª e Profª Joice Aparicio Pacheco de Souza
Sobre o autor
Enfª e Profª Joice Aparicio Pacheco de Souza
Professora

Graduada em Enfermagem e Obstetrícia pela Universidade Gama Filho/RJ; pós-graduada lato sensu em Enfermagem do Trabalho (UGF), Docência do Ensino Superior (Universidade Castelo Branco), Auditoria em Sistemas de Saúde (Universidade Estácio de Sá) e em Direito Internacional Humanitário e Direitos Humanos (Instituto Venturo/ADESG, 2026). Serviu como Oficial Enfermeira da Marinha do Brasil, atuando como docente na Escola de Saúde da Marinha, instrutora dos Cursos de Enfermagem Operativa e preceptora de residentes do Hospital Naval Marcílio Dias/RJ; foi Encarregada de Educação Continuada, Emergência e Medicina Operativa no Hospital Naval de Salvador/BA, integrando as equipes de Qualidade e de Controle de Avarias. Tem experiência em supervisão e gestão de enfermagem em hospitais de alta complexidade, com passagens pelo Hospital da UNIMED Maceió/AL, Hospital Naval Marcílio Dias/RJ e Hospital Quinta D’Or/RJ; atuou também como Enfermeira do Trabalho do SESI e docente no SENAI/SESI em Corumbá/MS. Recebeu as condecorações Medalha do Combate à Covid-19, Medalha Elza Cansanção, Medalha Sangue de Heróis, Medalha Comemorativa do Sexagenário de Criação da Polícia do Exército e Medalha Marechal Zenóbio da Costa; mantém atualização em urgência e emergência (AHA, 2022), infecção hospitalar, síndromes coronarianas, SAE e manipulação de cateter Swan-Ganz (HCAP/Bombeiros-RJ). 

  • Enfª e Profª Joice Aparicio Pacheco de Souza

Comentários

Para comentar, faça login.

Entrar / cadastrar

Nenhum comentário publicado ainda.

Asher Comments v0.1.61 · Asher Consultoria · DIH em Foco

Acesso

Visitantes Online

Temos 115 convidados e um membro online

Visitas

  • Ver Acessos do Artigo 29070

Direito e Proteção

O DIH em Foco compromete-se com a proteção das informações pessoais e institucionais fornecidas pelos usuários, em conformidade com a legislação aplicável. Os dados coletados são utilizados exclusivamente para comunicação e finalidades relacionadas às atividades do site.