
Num estudo nacional com 3.594 enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, mais da metade dos participantes apresentou nível moderado de prejuízo cognitivo e emocional. Os dados foram coletados entre abril e julho de 2022 e publicados na revista Cogitare Enfermagem (Santin Júnior et al.). Exaustão moderada apareceu em 42,29% da amostra, e o distanciamento mental em 38,59%.
Esses números descrevem a rotina comum. Quando a rotina dá lugar a uma enchente, a um rompimento de barragem, a um tiroteio com muitas vítimas ou a uma crise humanitária na fronteira, a carga muda de natureza. Aí a pergunta deixa de ser se o profissional vai se desgastar e passa a ser quem vai cuidar dele quando a operação terminar.
O trauma que não aparece no prontuário
Em emergências a enfermagem ocupa a posição mais exposta da cadeia assistencial. É ela que faz a triagem, decide em segundos quem recebe atendimento primeiro, segura a mão de quem está morrendo e conversa com famílias que ainda não sabem o que aconteceu. O médico faz o diagnóstico, mas quem fica ao lado do paciente durante horas é, quase sempre, a equipe de enfermagem.
A literatura clínica separa três fenômenos que costumam ser confundidos. O estresse ocupacional vem do desequilíbrio entre demanda e recursos. O burnout é o esgotamento crônico que surge desse desequilíbrio ao longo do tempo. Já a fadiga por compaixão, conceito sistematizado pelo psicólogo norte-americano Charles Figley nos anos 1990, é o desgaste de quem absorve, de forma repetida, o sofrimento alheio.
|"A fadiga por compaixão não vem do desânimo com o trabalho. É o preço de absorver, dia após dia, o sofrimento de quem precisa de socorro."|
Essa distinção tem consequências práticas. Um profissional pode gostar do trabalho, ter boa relação com a chefia e mesmo assim apresentar pesadelos, irritabilidade e evitação depois de semanas atendendo vítimas de uma tragédia. Nesse caso, dar folga não resolve. Ele precisa de acompanhamento voltado ao trauma.
A exposição repetida a eventos traumáticos também produz o chamado trauma secundário, ou vicário. O profissional não viveu o evento, mas passa a carregar as imagens, os relatos e a sensação de ameaça como se tivesse vivido. Então a soma de pequenos impactos pesa tanto quanto um único episódio grave, e às vezes pesa mais.
O Brasil em estado de resposta permanente
Nos últimos anos o país acumulou operações de grande escala que puseram a enfermagem sob pressão extrema. A pandemia de covid-19 foi o caso mais amplo. Uma revisão integrativa de 17 estudos brasileiros publicados entre 2020 e 2025 encontrou alta prevalência de ansiedade, depressão, estresse e burnout entre profissionais da linha de frente. Os fatores que mais agravaram o quadro foram a sobrecarga, a falta de equipamentos e a ausência de apoio psicológico (Cruz e Dallagassa, 2025).
Depois vieram as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, que mobilizaram equipes civis e militares de todo o país. No Norte, a Operação Acolhida, conduzida em Roraima com participação decisiva das Forças Armadas, recebe há anos migrantes venezuelanos em situação de vulnerabilidade. A operação virou referência internacional de resposta humanitária, e a enfermagem aparece nela desde a triagem na fronteira até o acompanhamento de gestantes e crianças.
Essas missões mostram a capacidade do Estado brasileiro de agir com escala e competência. Também mostram que o capital humano que sustenta essa capacidade é finito.
|"Uma equipe que termina uma operação sem descompressão chega à próxima emergência com as reservas psicológicas já gastas."|
A dimensão previdenciária confirma o alerta. Segundo dados do Ministério da Previdência Social divulgados pela imprensa em 2026, os afastamentos por burnout se multiplicaram por seis em quatro anos. O dado vale para todas as categorias, mas é difícil imaginar que a enfermagem, maior força de trabalho da saúde brasileira, esteja fora dessa curva.
A resposta regulatória e o dever institucional
O marco mais recente é a atualização da Norma Regulamentadora nº 1. A Portaria MTE nº 1.419/2024 incluiu expressamente os fatores de risco psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais e no Programa de Gerenciamento de Riscos. Na prática, gerir estresse, jornadas extenuantes e sobrecarga deixou de ser boa prática e virou obrigação legal.
As novas exigências passaram a valer em 26 de maio de 2026. Em setembro, o Supremo Tribunal Federal prorrogou por mais 90 dias a suspensão das multas ligadas aos riscos psicossociais, para permitir a continuidade do diálogo entre governo, empregadores e demais envolvidos. A decisão não suspendeu o dever de identificar e prevenir esses riscos, e esse ponto importa muito para hospitais e serviços de urgência.
Para as instituições de saúde, a norma oferece um roteiro. O primeiro passo é reconhecer que a exposição a eventos traumáticos é um risco ocupacional mensurável, assim como a exposição a agentes biológicos. Depois vem a obrigação de planejar, porque a emergência não pode ser a primeira vez em que a gestão pensa no assunto.
Há ainda uma dimensão pouco lembrada fora dos círculos especializados. Em conflitos armados, o Direito Internacional Humanitário protege o pessoal sanitário justamente porque entende a missão médica como bem comum. A I Convenção de Genebra e o Protocolo Adicional I tratam desse pessoal como categoria que deve ser respeitada e protegida em qualquer circunstância. A Resolução 2286, aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU em 2016, reforçou essa proteção diante dos ataques a hospitais.
A tradição ocidental construiu essa proteção porque entendeu algo simples. Sem quem cuida, não há resposta humanitária possível. Levar esse raciocínio para o plano interno é um passo natural.
|"Proteger a missão sanitária é princípio do Direito Humanitário. Proteger a mente de quem a executa é o passo seguinte da mesma tradição."|
O que as forças armadas ocidentais aprenderam primeiro
As instituições militares das democracias ocidentais chegaram antes a esse debate, porque tiveram de lidar com o custo psicológico do combate em escala. Delas vieram alguns dos modelos mais consistentes de apoio pós-evento, hoje adaptados a hospitais, corpos de bombeiros e polícias.
| Modelo | Origem | Lógica central |
| Primeiros Cuidados Psicológicos | Organização Mundial da Saúde e parceiros, 2011 | Apoio humano, prático e não invasivo logo após o evento |
| TRiM (Trauma Risk Management) | Royal Marines, Reino Unido | Pares treinados avaliam risco e encaminham quem precisa |
| Stress First Aid | Marinha e Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, com o National Center for PTSD | Identificação contínua do estresse e intervenção precoce entre colegas |
| Debriefing em sessão única obrigatório | Prática difundida nos anos 1980 e 1990 | Hoje não é recomendado pela OMS como intervenção isolada |
A última linha da tabela merece atenção. Durante muito tempo se acreditou que reunir a equipe logo após a tragédia e obrigar cada um a narrar o que viveu evitaria o trauma. As evidências mostraram que, em alguns casos, essa prática pode piorar os sintomas. A OMS passou a desaconselhar o debriefing psicológico em sessão única como medida isolada.
Essa correção de rota é, em si, uma lição institucional. As democracias revisam seus protocolos quando os dados contrariam a intuição, publicam os resultados e ajustam a doutrina. Esse ciclo de avaliação transparente é o que separa um sistema de cuidado de uma sequência de boas intenções.
Em regimes fechados, a saúde mental de quem trabalha na linha de frente costuma ser tratada como assunto de disciplina, ou simplesmente como tabu. Sem imprensa livre e sem pesquisa independente, o adoecimento fica invisível. O profissional que desaba é visto como fraco, quando na verdade é o sinal mais claro de que a estrutura falhou.
Da boa intenção à doutrina
Transformar o reconhecimento do problema em prática exige pensar a operação em três tempos.
Antes da emergência, a instituição precisa de treinamento, escalas que prevejam revezamento real e pares treinados em apoio psicológico. O profissional deve saber, com antecedência, que existe um caminho de ajuda e que usá-lo não vai prejudicar a carreira.
Durante a operação, a liderança tem papel decisivo. Rodízio em funções de maior carga emocional, pausas protegidas e comunicação clara reduzem o desgaste. O líder que demonstra cansaço e pede substituição quando necessário dá à equipe permissão implícita para fazer o mesmo.
Depois da operação, o acompanhamento não pode acabar na primeira semana. Sintomas de estresse pós-traumático podem aparecer semanas ou meses depois. Por isso, contato periódico, triagem simples e acesso rápido a atendimento especializado valem mais do que um único encontro coletivo.
Há também o fator estigma. Muitos profissionais escondem o sofrimento por medo de parecerem inaptos. Os modelos baseados em pares funcionam justamente porque quebram essa barreira, já que a conversa começa entre iguais, com alguém que conhece a mesma realidade.
A saúde mental da enfermagem, então, deixa de ser uma questão privada e passa a ser um indicador de prontidão. Um país que depende dessas equipes para responder a desastres, crises migratórias, grandes eventos e incidentes com múltiplas vítimas precisa tratá-las como ativo estratégico. Nos estudos de guerra cognitiva publicados neste site, a resiliência psicológica aparece como elemento central da segurança. Esse raciocínio também serve para quem sustenta a resposta civil às crises.
Cuidar de quem cuida como política de Estado
O Brasil tem vantagens reais nesse campo. Tem uma das maiores forças de trabalho de enfermagem do mundo, um sistema público com capilaridade nacional, Forças Armadas experientes em missões humanitárias e agora um marco regulatório que nomeia os riscos psicossociais. O que falta é integrar essas peças numa doutrina comum de apoio pós-evento.
A preparação para crises é um tema recorrente na série Si Vis Pacem. O velho princípio romano diz que quem deseja a paz deve se preparar para a guerra. Na saúde, a lógica é a mesma.
|"Quem deseja uma boa resposta a desastres precisa preparar, antes de tudo, a mente das pessoas que vão executá-la."|
Nenhum protocolo elimina a dor de ver uma criança morrer depois de horas de esforço. Mas a instituição que planeja, treina, acompanha e escuta consegue fazer com que essa dor não se transforme em afastamento, em abandono da profissão ou em algo pior.
|"A diferença entre um profissional ferido e um profissional perdido costuma estar no que a instituição fez nos dias seguintes à tragédia."|
A tradição humanitária ocidental nasceu, em boa parte, do olhar de Henry Dunant sobre os feridos de Solferino e da percepção de que alguém precisava organizar o cuidado. Mais de 160 anos depois, o desafio é incluir no mesmo gesto aqueles que cuidam.
Na sua experiência, as instituições brasileiras já tratam o sofrimento psíquico das equipes de enfermagem como risco operacional ou ele ainda depende da resistência individual de cada profissional?
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