O Preço da Experiência. A Coreia do Norte, 30.000 Soldados e a Nova Aritmética do Combate Moderno

Em 25 de julho de 2026, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky trouxe a público uma realidade sombria que já era acompanhada com muita apreensão por especialistas em segurança global. Ele confirmou que a Rússia havia feito um pedido alarmante à Coreia do Norte para o envio de aproximadamente trinta mil soldados. O objetivo claro era reforçar as exaustivas operações na linha de frente da Ucrânia. Esses homens já estavam em fase de preparação desde o mês de junho na distante região de Voronezh. Tal confirmação não apenas expôs os bastidores do conflito, mas cravou na história a consolidação de uma aliança militar assustadora. Essa parceria havia começado de maneira furtiva e silenciosa ainda no ano de 2024 e se transformou rapidamente em um dos maiores focos de tensão e medo na nossa geopolítica contemporânea.

Um frio acordo de defesa mútua assinado entre os governos de Moscou e Pyongyang criou toda a base legal para justificar essa manobra. Na crua realidade do campo de batalha, essa colaboração empurrou jovens tropas da Coreia do Norte para o horror de um combate real em solo europeu. Esse foi um marco trágico e inédito na nossa história moderna. A estimativa é que cerca de quatorze mil soldados do Exército Popular da Coreia tenham sido despachados para a gélida região russa de Kursk no final de 2024, logo após as forças ucranianas avançarem por aquele território. O impacto desse primeiro movimento foi ao mesmo tempo revelador e muito doloroso. O mundo inteiro passou a ter uma visão clara e cruel sobre a verdadeira capacidade e sobre os trágicos limites das forças armadas de Pyongyang quando submetidas à extrema violência de uma guerra implacável.

A curva de aprendizado mais dolorosa e cara do nosso século

Quando olhamos para as vidas envolvidas, o desempenho inicial desses soldados da Coreia do Norte no cenário devastado da Ucrânia foi uma verdadeira catástrofe humana e operacional. Uma análise muito detalhada publicada pelo portal 38 North em fevereiro de 2025 revelou o custo terrível dessa aliança. O contingente de cerca de onze mil homens enviados naquela primeira leva de combate perdeu quase quarenta por cento de toda a sua força efetiva em apenas três meses de confrontos brutais. Por trás desses números gelados da estatística, existe uma tragédia incalculável. Aproximadamente mil soldados perderam suas vidas de forma abrupta e outros três mil sofreram ferimentos gravíssimos, marcando para sempre o destino desses jovens em uma terra estrangeira.O Exército Popular da Coreia chegou ao campo de batalha sem familiaridade com guerra de alta intensidade moderna, sem contramedidas eficazes contra drones, com doutrinas táticas desatualizadas e com sérias dificuldades de integração com as forças russas.

Os relatos de combatentes ucranianos, nesse período inicial, descreveram ondas de infantaria avançando em formações abertas contra posições defendidas, ignorando os princípios elementares de cobertura e dissimulação que o campo de batalha contemporâneo exige. Um comandante do 33º Regimento de Assalto ucraniano descreveu as táticas norte-coreanas como cargas suicidas que lembravam cenas de conflitos de gerações passadas, não de uma guerra do século XXI. A doutrina de não se render, reforçada ideologicamente ao ponto de os soldados preferirem o suicídio à captura, contribuiu para os índices de baixas extraordinariamente elevados. A Ucrânia conseguiu capturar apenas dois soldados norte-coreanos vivos em meses de combate intenso.

Contudo, reduzir a análise a esse estágio inicial seria ignorar o fenômeno mais preocupante que emergiu dos meses subsequentes.

Adaptação como estratégia de Estado

A curva de adaptação das forças norte-coreanas surpreendeu analistas ocidentais pelo ritmo e pela profundidade. Em questão de semanas, os contingentes do Exército Popular da Coreia começaram a operar em unidades menores, integraram inteligência de drones às equipes de artilharia e reduziram drasticamente o ciclo sensor-atirador, de horas para minutos. Segundo análise do Royal United Services Institute publicada em abril de 2026, unidades norte-coreanas passaram a incorporar informações de drones de reconhecimento diretamente em loops de controle de fogo de artilharia e sistemas de lançamento múltiplo de foguetes, adquirindo uma capacidade que levaria anos a ser desenvolvida em ambiente de treinamento convencional.

O Institute for Security and Development Policy, em relatório de maio de 2026, descreveu o conflito ucraniano como um "laboratório de combate ao vivo sem precedentes" para a Coreia do Norte. Os ganhos não se limitam ao pessoal combatente. O documento aponta progressos documentados em guerra eletrônica, sistemas contra-UAV, radares, alerta aéreo antecipado e modernização de artilharia. A parceria com a Rússia efetivamente acelerou ciclos de desenvolvimento de armamentos que, em condições normais, demandariam décadas de investimento autônomo.

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky expressou essa mesma angústia com uma precisão cirúrgica durante o seu duro pronunciamento no dia 25 de julho de 2026. Em suas próprias palavras, "A Rússia ajuda a Coreia do Norte a aprender a fazer a guerra, a melhorar suas armas e a adquirir experiência real de combate". O líder ucraniano continuou o seu doloroso alerta afirmando que "Tudo isso constitui uma ameaça para todos os países da Ásia que estão ao alcance dos mísseis norte-coreanos". Essa lúcida e preocupante observação vai muito além das fronteiras devastadas do território ucraniano. Ela joga uma luz direta sobre a gigantesca dimensão sistêmica desse novo problema que agora assombra a segurança global e a paz de milhares de famílias.

A geometria do acordo Moscou-Pyongyang

Para compreender por que a Coreia do Norte aceita pagar em sangue o preço de sua aprendizagem em combate, é necessário entender a racionalidade estratégica que sustenta a parceria. Pyongyang não está enviando soldados para o front ucraniano por altruísmo ideológico. Está comprando, a custo de vidas humanas, algo que nenhum simulador ou exercício de treinamento pode replicar, ou seja, experiência de combate real contra um adversário moderno, bem equipado e altamente motivado.

O acordo de defesa mútua com a Rússia também garante a Pyongyang fluxos de combustível, alimentos e tecnologia que aliviam pressões geradas por décadas de sanções internacionais. A Coreia do Norte transfere munições de artilharia e mísseis balísticos para a Rússia e recebe, em contrapartida, tecnologia militar de ponta, legitimidade diplomática e o inestimável capital de experiência que seus oficiais estão acumulando no front. A visita da ministra norte-coreana das Relações Exteriores, Choe Son Hui, a Moscou horas antes do pronunciamento de Zelensky sinalizou que essa parceria está em processo ativo de aprofundamento institucional, não de eventual recuo.

Do ponto de vista do Direito Internacional Humanitário, a presença de forças norte-coreanas em território russo e ucraniano levanta questões de difícil resolução. Os soldados da RPDC operam sob comando misto, integrados a unidades russas em graus variados, sem que haja qualquer reconhecimento formal de seu status por parte de Pyongyang. A negação inicial da participação norte-coreana, seguida do reconhecimento russo tardio e das declarações de Kim Jong Un elogiando os combatentes que preferem morrer a serem capturados, configura um padrão de engajamento que desafia categorias estabelecidas pelas Convenções de Genebra e pelo Protocolo Adicional I. A questão do estatuto jurídico dos combatentes, a proteção devida aos feridos e prisioneiros e a responsabilidade de comando em estruturas de comando mistas permanecem sem resposta clara na arquitetura normativa vigente.

30.000 soldados e o que significa essa escalada

O número anunciado por Zelensky representa mais que o dobro do contingente original enviado em 2024. Se confirmado, esse desdobramento sinalizará uma mudança qualitativa na estratégia de ambos os parceiros. A Rússia, que enfrenta pressões de mobilização interna, encontrou na Coreia do Norte um reservatório de pessoal militar disposto a aceitar condições que força de recrutamento interna teria dificuldades em replicar. Para Moscou, cada soldado norte-coreano representa tanto um reforço numérico no campo quanto um ativo de barganha na relação com Pyongyang.

Para a Coreia do Norte, 30.000 soldados em rotação pelo front ucraniano significam um programa de treinamento em combate real de escala histórica. Quando esses homens retornarem a Pyongyang, trarão consigo não apenas cicatrizes, mas conhecimento operacional que será reintroduzido no Exército Popular da Coreia através de novas doutrinas, programas de treinamento reformulados e um corpo de oficiais com experiência de combate genuína. O impacto sobre o equilíbrio estratégico na Península Coreana, onde as forças sul-coreanas e o contingente americano estacionado na região operam sob a presunção de superioridade tecnológica, merece atenção urgente de analistas e tomadores de decisão.

A Coreia do Sul manteve postura de relativo silêncio diante da transformação das forças norte-coreanas. Analistas do The Guardian, em julho de 2025, questionaram se Seul compreendia plenamente a ameaça representada pela modernização acelerada do Exército Popular da Coreia a partir das lições do campo de batalha ucraniano. A ausência de resposta política proporcional a essa transformação representa uma vulnerabilidade estratégica que vai além da Península Coreana, afetando o equilíbrio de poder em toda a Ásia-Pacífico.

A guerra como laboratório e suas consequências sistêmicas

O conflito na Ucrânia já havia demonstrado, antes mesmo da entrada norte-coreana, sua capacidade de transformar doutrinas militares, acelerar a adoção de tecnologias de uso duplo e redefinir conceitos de guerra terrestre em tempo real. A introdução de um ator como a Coreia do Norte nesse laboratório de combate acrescenta uma variável com implicações que transcendem o teatro europeu.

Um regime que combina arsenal nuclear em desenvolvimento, uma população militarizada por décadas de condicionamento ideológico e agora uma geração de combatentes com experiência real de guerra moderna representa uma equação de segurança radicalmente diferente daquela existente antes de outubro de 2024. O custo dessa transformação foi pago, em parte, em vidas de soldados enviados ao frente sem preparo adequado, em cidades ucranianas destruídas e em ferimentos que poucos dos sobreviventes poderão discutir publicamente ao retornar ao hermetismo de Pyongyang.

A questão que se impõe ao observador atento não é apenas quantos soldados serão enviados, mas o que voltará com eles. Em guerras modernas, a experiência de combate é um multiplicador de força cujo valor excede qualquer equipamento ou tecnologia transferida. A Coreia do Norte está, metodicamente, comprando esse multiplicador ao preço que apenas regimes com indiferença estrutural ao custo humano conseguem pagar. O Ocidente e seus aliados na Ásia-Pacífico precisam responder a essa equação com a mesma clareza estratégica com que ela está sendo executada.


Referências

38 NORTH. North Korea's Military Intervention in Kursk: A High Casualty Learning Curve. Washington, fev. 2025. Disponível em: https://www.38north.org. Acesso em: 27 jul. 2026.

38 NORTH. Drones and Operational Shift: North Korea's Adaptation to a Changing Warfare Environment. Washington, abr. 2026. Disponível em: https://www.38north.org. Acesso em: 27 jul. 2026.

AP NEWS. North Korean troops in Ukraine gain battlefield experience, cementing alliance with Russia. Nova York, jan. 2025. Disponível em: https://apnews.com. Acesso em: 27 jul. 2026.

CNN BRASIL. Zelensky diz que Rússia planeja levar 30 mil norte-coreanos para guerra. São Paulo, 25 jul. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br. Acesso em: 27 jul. 2026.

INSTITUTE FOR SECURITY AND DEVELOPMENT POLICY. The DPRK's War Dividend in Ukraine: Capabilities Gained, Trajectory Shifted, and the Long-Term Strategic Impact. Estocolmo, maio 2026. Disponível em: https://www.isdp.eu. Acesso em: 27 jul. 2026.

KYIV INDEPENDENT. North Korea's troops learn the lessons of Russia's war, albeit at heavy cost. Kiev, jan. 2025. Disponível em: https://kyivindependent.com. Acesso em: 27 jul. 2026.

ROYAL UNITED SERVICES INSTITUTE. How North Korea is Modernising its Defence. Londres, abr. 2026. Disponível em: https://www.rusi.org. Acesso em: 27 jul. 2026.

SMALL WARS JOURNAL. The Battlefield Lessons North Korea Has Learned Fighting Ukraine. Tempe, abr. 2025. Disponível em: https://smallwarsjournal.com. Acesso em: 27 jul. 2026.

THE GUARDIAN. North Korea's military is being transformed on the battlefields of Ukraine. Londres, jul. 2025. Disponível em: https://www.theguardian.com. Acesso em: 27 jul. 2026.

VEJA. Zelensky afirma que Rússia prepara envio de mais 30 mil soldados norte-coreanos para a guerra. São Paulo, 25 jul. 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br. Acesso em: 27 jul. 2026.


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Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Sobre o autor
Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Professor

Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras, especialista em Operações Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e possui o Curso de Altos Estudos Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional pela Universidade de Nebrija/Espanha. É Analista de Operações Psicológicas (Canadá), possui o Curso de Staff de Operações Psicológicas (Canadá), especialista em Operações de Informação (Canadá) E especialista em Coordenação Civil-MIlitar/CIMIC (Canadá). Possui MBA em Segurança, Defesa, Geopolítica e Relações Internacionais pelo Instituto Venturo/ADESG. Integrou a Missão de Administração Transitória das Nações Unidas no Timor Leste/UNTAET e foi Oficial de Operações da Força Interina das Nações Unidas no Líbano/UNIFILTrabalhou como Oficial de Ligação junto ao Centro de Treinamento e Doutrina do Exército Canadense. 

  • Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza

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Marcos Cesare 28/07/2026 16:03

A vida dos escravos ( habitantes) coreanos não tem nenhum valor ao Ditador. Como ele é um pária, vai mandar para a morte um sem número de seus soldados, até satisfazer as suas ambições nesta relação com a Rússia. Que se danem as regras civilizacionais!

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