Quando a Mentira Tem Rosto. Deepfakes e a Nova Fronteira da Guerra Cognitiva

Imagine acordar numa manhã de crise geopolítica e ver, em vídeo nítido, o presidente de uma potência ocidental anunciando a rendição de suas forças. O tom é grave, o sotaque é preciso, os gestos são familiares. Nas primeiras horas, milhões assistem. Mercados financeiros reagem. Cidades entram em pânico. Governos aliados suspendem comunicações. Só então, horas depois, a falsificação é identificada. Mas o dano já está feito.

Esse não é um roteiro de ficção científica. É a lógica operacional que governa o uso de deepfakes como instrumento de desestabilização geopolítica. E ela já saiu do campo hipotético.

Em março de 2022, poucos dias após o início da invasão russa da Ucrânia, um vídeo manipulado do presidente Volodymyr Zelensky circulou em larga escala nas redes sociais. No conteúdo fabricado, o líder ucraniano supostamente ordenava que suas tropas depusessem as armas e se rendessem. A qualidade técnica ainda era primitiva, os artefatos digitais eram visíveis para um olhar treinado, e a resposta governamental conseguiu neutralizar o efeito em tempo razoável. O episódio marcou um divisor de águas. Pela primeira vez em um conflito de alta intensidade, uma potência revisionista utilizou deepfakes contra um chefe de Estado aliado do Ocidente como parte de uma operação de informação coordenada.

O que se seguiu foi uma escalada metódica. Segundo relatório do Centro de Combate à Desinformação da Ucrânia, publicado em novembro de 2025, a Rússia passou de tentativas isoladas e tecnicamente imperfeitas para uma contaminação sistemática do espaço informacional com conteúdo gerado por inteligência artificial. O relatório documenta o uso crescente de deepfakes para desacreditar as Forças de Defesa ucranianas, fabricar capitulações fictícias e simular dissidências internas entre a liderança militar do país.

A Rússia não opera sozinha nesse terreno. A China vem conduzindo campanhas semelhantes voltadas para Taiwan, com vídeos deepfake de líderes políticos taiwaneses sendo usados em operações de propaganda documentadas pela OCDE em setembro de 2025 e janeiro de 2026. O padrão é recorrente. Uma imagem falsa de um líder legítimo, com linguagem corporal convincente e voz sintetizada, é distribuída em plataformas de alto alcance antes que os sistemas de verificação consigam reagir. A janela de vulnerabilidade pode durar horas ou dias. Nesse intervalo, a narrativa já se instalou.

O conflito entre os Estados Unidos, Israel e o Irã, iniciado em fevereiro de 2026, ofereceu o mais extenso laboratório em tempo real desse fenômeno. A empresa de monitoramento Cyabra identificou uma campanha de influência coordenada que gerou mais de 145 milhões de visualizações em menos de duas semanas nas plataformas X, Facebook, Instagram e TikTok. Cerca de 19% das contas analisadas eram inautênticas e operavam em padrões sincronizados de publicação, amplificando deepfakes fabricados com ferramentas de inteligência artificial generativa. O TikTok respondeu sozinho por 72% das visualizações totais, ultrapassando 105 milhões. O objetivo da operação era duplo. Para a audiência interna iraniana, projetar uma narrativa de força e resistência. Para a audiência internacional, corroer a legitimidade das operações americanas e israelenses.

O que torna esse cenário estruturalmente perigoso não é apenas a sofisticação técnica crescente dos conteúdos produzidos. É a velocidade com que eles se propagam e o momento em que são inseridos. Em situações de crise, quando a incerteza é máxima e a pressão por decisões imediatas é intensa, a desinformação audiovisual convincente pode interferir diretamente no processo de tomada de decisão política e militar. Um deepfake bem posicionado antes de uma cúpula de emergência, durante uma negociação sensível ou no horário de maior audiência de uma transmissão ao vivo pode alterar percepções de aliados, desestabilizar coalizões e criar janelas de oportunidade para ações ofensivas no mundo real.

Essa dimensão operacional é o que diferencia o uso geopolítico de deepfakes da desinformação convencional. Não se trata apenas de confundir a opinião pública a longo prazo, como já analisado nesta série ao tratar do fenômeno da guerra cognitiva e suas dimensões no ambiente digital. O objetivo é intervir em pontos de decisão críticos, criando o que analistas da OTAN chamam de efeito de nebulosa cognitiva, uma paralisia temporária dos mecanismos de resposta institucional provocada pela impossibilidade imediata de distinguir o real do fabricado.

A vulnerabilidade é amplificada pelas próprias características das democracias liberais. Sociedades abertas, com imprensa livre, plataformas descentralizadas e alta circulação de informação, oferecem vetores de distribuição que regimes autoritários podem explorar sem reciprocidade. O adversário pode inundar o espaço informacional ocidental com conteúdo fabricado enquanto controla hermeticamente o fluxo de informações dentro de suas próprias fronteiras. Essa assimetria estrutural é um problema que nenhuma solução técnica resolve sozinha.

As democracias não estão paradas. O governo do Reino Unido publicou, em março de 2026, relatório do Departamento de Ciência, Inovação e Tecnologia mapeando o estado atual do mercado de detecção de deepfakes, reconhecendo que o campo ainda está em estágios iniciais e que a demanda governamental precisa catalisar o desenvolvimento do setor privado. O Desafio de Detecção de Deepfakes britânico é uma das iniciativas mais avançadas em curso, reunindo atores acadêmicos, empresariais e de segurança em torno de padrões comuns de identificação de conteúdo sintético.

No campo técnico, pesquisadores apresentaram em agosto de 2026, na revista Scientific Reports, um framework chamado DeepFakeBuster, baseado em ensemble adaptativo com calibração de confiança, capaz de identificar deepfakes mesmo sob condições de degradação intencional da imagem, que é uma das principais táticas para burlar sistemas de detecção automatizados. A CVPR 2026, principal conferência mundial de visão computacional, dedicou uma competição específica ao problema da robustez na detecção de deepfakes, refletindo a urgência que a comunidade científica passou a atribuir ao tema.

Do ponto de vista regulatório, a União Europeia deu passos significativos. Em maio de 2026, a Comissão Europeia publicou diretrizes de implementação do Artigo 50 do AI Act, determinando que conteúdos sintéticos que representem pessoas reais devem ser obrigatoriamente rotulados, mesmo quando não houver intenção declarada de enganar. As obrigações entraram em vigor em 2 de agosto de 2026. É um avanço normativo relevante, embora sua eficácia dependa da capacidade de enforcement em plataformas que operam fora da jurisdição europeia.

A OTAN consolidou em 2026 uma agenda estruturada de guerra cognitiva, com conferências dedicadas a operações de influência e ao papel da inteligência artificial agêntica na manipulação de percepções. O boletim do ACT da OTAN de abril de 2026 documenta o desenvolvimento de metodologias para atribuição de operações russas de influência informacional, um passo essencial para que respostas diplomáticas e operacionais possam ser calibradas com base em evidências sólidas.

Neste ponto, é preciso ser honesto sobre os limites do otimismo tecnológico. Cada avanço em detecção de deepfakes provoca, em resposta, um avanço equivalente nas técnicas de geração. Os modelos adversariais generativos, que são a arquitetura de inteligência artificial por trás da maioria dos deepfakes modernos, foram projetados precisamente para derrotar classificadores treinados para identificá-los. É uma corrida armamentista em que a ofensa tem, estruturalmente, vantagem de velocidade sobre a defesa. Gerar é sempre mais rápido do que verificar.

Isso significa que a resposta adequada não pode depender exclusivamente de ferramentas técnicas. A alfabetização midiática crítica, especialmente entre tomadores de decisão, militares e jornalistas em situações de crise, é uma contramedida tão ou mais importante do que qualquer algoritmo de detecção. Como já discutido ao analisar o fenômeno da Slopaganda e a industrialização da desinformação, a velocidade de produção de conteúdo falso hoje ultrapassa qualquer capacidade humana de verificação individual. O que pode fazer diferença é a construção de protocolos institucionais que imponham fricção deliberada antes que conteúdo não verificado influencie decisões com consequências irreversíveis.

O horizonte que se desenha não é reconfortante para quem esperava que a tecnologia resolvesse o que a tecnologia criou. A proliferação de deepfakes de alta qualidade está democratizando uma capacidade que, até pouco tempo, estava restrita a atores estatais com recursos significativos. Grupos paramilitares, organizações terroristas e redes de desinformação descentralizadas já têm acesso a ferramentas de geração de conteúdo sintético de qualidade profissional. O que era um instrumento de potências revisionistas começa a se tornar uma commodity do ecossistema de manipulação informacional global.

A batalha pela verdade nos conflitos contemporâneos não se trava mais apenas nos campos de batalha físicos ou nos corredores da diplomacia. Ela se trava, cada vez mais, nos primeiros segundos em que uma imagem fabricada aparece em um feed de notícias, antes que qualquer sistema de verificação tenha sido acionado, antes que qualquer comunicado oficial seja emitido, antes que qualquer aliança tenha tido tempo de coordenar sua resposta. Quem controlar esses segundos controla, em grande medida, a narrativa da crise.
As democracias construíram suas instituições sobre o pressuposto de que a verdade, com tempo e transparência, prevalece. Esse pressuposto nunca foi tão pressionado como agora.


Referências

CENTER FOR COUNTERING DISINFORMATION. Analytical Report: The Use of Artificial Intelligence-Generated Videos to Discredit the Defence Forces of Ukraine. Kyiv, nov. 2025. Disponível em: https://cpd.gov.ua/en. Acesso em: 7 ago. 2026.

CYABRA. How Iran Used AI to Fight a War Online. Tel Aviv, mar. 2026. Disponível em: https://cyabra.com. Acesso em: 7 ago. 2026.

BROOKINGS INSTITUTION. Generative AI as a Weapon of War in Iran. Washington, abr. 2026. Disponível em: https://www.brookings.edu. Acesso em: 7 ago. 2026.

FOREIGN POLICY. Deepfakes Are Already Shaping Opinions Around Conflicts. Washington, 17 mar. 2026. Disponível em: https://foreignpolicy.com. Acesso em: 7 ago. 2026.

ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT. AI Incidents and Hazards Monitor: China Uses AI-Generated Deepfake Videos for Political Propaganda Targeting Taiwan. Paris, jan. 2026. Disponível em: https://oecd.ai. Acesso em: 7 ago. 2026.

ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT. AI Incidents and Hazards Monitor: Russia Uses AI-Generated Fake Videos to Fabricate Military Success in Kostyantynivka. Paris, jun. 2026. Disponível em: https://oecd.ai. Acesso em: 7 ago. 2026.

UNITED KINGDOM. Department for Science, Innovation and Technology. Deepfake Detection Technology. Londres, mar. 2026. Disponível em: https://www.gov.uk. Acesso em: 7 ago. 2026.

NATO ACT. Cognitive Warfare Newsletter, Issue 8. Bruxelas, abr. 2026. Disponível em: https://www.act.nato.int. Acesso em: 7 ago. 2026.

HOPF, B. et al. Robust Deepfake Detection, NTIRE 2026 Challenge. In: IEEE/CVF CONFERENCE ON COMPUTER VISION AND PATTERN RECOGNITION WORKSHOPS, 2026, Nashville. Anais. Nashville: IEEE, 2026. p. 1925-1938.

GREENBERG TRAURIG. Deepfakes, Chatbots, AI-Generated Text: EU Commission Details Transparency Obligations Under the AI Act. Washington, jun. 2026.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 10520: informação e documentação: citações em documentos: apresentação. Rio de Janeiro, 2023.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6022: informação e documentação: artigo em publicação periódica científica impressa: apresentação. Rio de Janeiro, 2018.


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Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Sobre o autor
Prof. Me. Alexandre Pacheco de Souza
Professor

Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras, especialista em Operações Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e possui o Curso de Altos Estudos Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional pela Universidade de Nebrija/Espanha. É Analista de Operações Psicológicas (Canadá), possui o Curso de Staff de Operações Psicológicas (Canadá), especialista em Operações de Informação (Canadá) E especialista em Coordenação Civil-MIlitar/CIMIC (Canadá). Possui MBA em Segurança, Defesa, Geopolítica e Relações Internacionais pelo Instituto Venturo/ADESG. Integrou a Missão de Administração Transitória das Nações Unidas no Timor Leste/UNTAET e foi Oficial de Operações da Força Interina das Nações Unidas no Líbano/UNIFILTrabalhou como Oficial de Ligação junto ao Centro de Treinamento e Doutrina do Exército Canadense. 

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