Quando Faltam Recursos, Sobra a Crise: O Colapso do Financiamento Humanitário e seus Efeitos Diretos sobre a Enfermagem em Campo

Em novembro de 2025, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou a redução de 17% em seu orçamento para o exercício de 2026, fixando-o em 1,8 bilhão de francos suíços. A medida veio acompanhada da supressão de 2.900 postos de trabalho, o equivalente a 15% de toda a sua força global.

A decisão, embora institucionalmente justificada pela retração nas contribuições dos doadores, materializa-se em um momento no qual o mundo registra mais de 130 conflitos armados ativos, o maior número contabilizado nas últimas décadas. A equação que daí resulta é, no mínimo, perversa. 

Há mais conflitos, menos recursos e, no vértice dessa contradição, profissionais de enfermagem que permanecem como a principal linha de cuidado direto às populações afetadas.

Convém observar, de início, que a crise de financiamento não constitui fenômeno isolado ou conjuntural. Ela é o produto de uma reconfiguração política profunda no cenário internacional. A suspensão das atividades externas da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), sob a administração Trump, provocou queda superior a 70% nos repasses destinados a organismos humanitários vinculados às Nações Unidas entre 2024 e 2025. 

Simultaneamente, outros doadores históricos, entre eles os Estados-membros da União Europeia, redirecionaram parcelas crescentes de seus orçamentos para a defesa, em resposta à intensificação das ameaças geopolíticas no leste europeu e no Indo-Pacífico. O resultado prático é uma arquitetura de financiamento humanitário que perde sua espinha dorsal justamente no momento de demanda máxima.

Para a enfermagem humanitária, essa conjuntura traduz-se em uma sobrecarga progressiva e silenciosa. Quando uma organização da envergadura do CICV suprime postos de trabalho, não elimina apenas funções administrativas. Reduz equipes de saúde que operam hospitais de campanha, postos de triagem e unidades cirúrgicas em regiões onde nenhum outro ator dispõe de acesso. 

Cada enfermeiro retirado do teatro de operações representa dezenas ou centenas de pacientes privados de seu único ponto de contato com a assistência médica organizada. A sobrecarga recai, inevitavelmente, sobre os profissionais que permanecem.

A realidade das operações humanitárias em 2025 foi descrita com precisão por Daniela Mota, enfermeira brasileira que atuou em Gaza pela organização Médicos Sem Fronteiras em junho daquele ano. Em seu relato, a profissional descreveu hospitais superlotados, ausência sistemática de insumos médicos e fome generalizada entre a população assistida. 

O colapso do ambiente operacional, observou ela, converte cada decisão clínica em um dilema ético de elevada complexidade. Essa experiência individual reflete, em escala ampliada, o que se reproduz em dezenas de outros contextos de conflito, do Sudão ao Iêmen, do Afeganistão ao norte de Moçambique.

A literatura científica mais recente começa a mapear com rigor esse fenômeno. Estudo publicado no periódico BMC Nursing em julho de 2025, fundamentado em pesquisa qualitativa conduzida com enfermeiros em situação de crise, identificou que a escassez simultânea de pessoal e de equipamentos não paralisa as equipes, mas as força a elaborar soluções adaptativas que raramente constam dos manuais operacionais convencionais. 

O estudo revelou que o tema central emergente das experiências analisadas foi o que os pesquisadores designaram por "emprego de oportunidades", isto é, a capacidade de identificar e mobilizar recursos latentes no próprio ambiente de crise para manter o cuidado em funcionamento (Asgari et al., 2025).

Essa capacidade adaptativa, embora admirável, não pode substituir o financiamento estrutural. O modelo SHARE-HRS, desenvolvido por pesquisadores da Universidade Griffith, na Austrália, e publicado em 2026, propõe uma estrutura de tomada de decisão específica para a alocação de recursos escassos em ambientes humanitários. 

O modelo identifica quatro domínios críticos de capacidade de resposta, que são equipe, espaço, suprimentos e sistemas, e reconhece que o domínio de pessoal é, de forma consistente, o mais fragilizado em contextos de contração orçamentária (Horn, Ranse & Marshall, 2026). Para a enfermagem, isso significa que a primeira variável comprometida pelos cortes de financiamento é, precisamente, a humana.

A redução de equipes não afeta somente a quantidade de cuidado prestado. Afeta sua qualidade de modos que nem sempre se revelam de imediato. Enfermeiros em campo operam sob tripla pressão, marcada pela sobrecarga de pacientes, pela privação de insumos básicos e pelo impacto psicológico de testemunhar o sofrimento em condições de impotência parcial. 

Pesquisas sobre burnout em profissionais de saúde humanitários demonstram que a combinação entre alta demanda e baixo controle sobre os recursos disponíveis constitui o principal preditor de abandono da missão antes do término previsto. Quando um enfermeiro experiente deixa uma operação por esgotamento, o custo real não é apenas individual, mas também operacional e institucional.

Diante desse quadro, organizações como o CICV, o Médicos Sem Fronteiras e diversas agências das Nações Unidas têm investido no desenvolvimento de protocolos de enfermagem operativa adaptada à escassez. Tais protocolos partem de um princípio fundamental, o de que a qualidade do cuidado não pode ser reduzida à quantidade de recursos disponíveis, devendo antes sustentar-se em decisões clínicas fundamentadas, triagem eficiente e uso racional dos insumos existentes. 

A triagem START (Simple Triage and Rapid Treatment), amplamente empregada na medicina de catástrofe, adquire novos contornos quando aplicada em contextos de escassez crônica, e não apenas de escassez aguda.

Entre as estratégias que emergem da prática em campo, destacam-se três linhas de ação consolidadas. A primeira concerne à padronização de protocolos clínicos simplificados, que habilitem profissionais de diferentes níveis de formação a prestar cuidados de maneira segura e rastreável, ainda que na ausência de equipamentos diagnósticos avançados. 

A segunda envolve a capacitação intensiva de agentes comunitários de saúde locais, que passam a atuar como extensores da equipe de enfermagem, ampliando o alcance do cuidado sem elevação proporcional dos custos operacionais. 

A terceira, e mais desafiadora, consiste na implementação de sistemas robustos de gestão de insumos, orientados à priorização de materiais reutilizáveis e de técnicas de baixo custo, sem comprometimento dos padrões de biossegurança.
Essas estratégias, contudo, esbarram em um limite estrutural incontornável. Nenhuma técnica de enfermagem operativa substitui o acesso a medicamentos essenciais, como antibióticos, analgésicos e materiais de sutura.

Quando os cortes orçamentários atingem as cadeias de suprimentos das organizações humanitárias, como vem ocorrendo sistematicamente desde 2024, os protocolos adaptados perdem eficácia, porquanto seu pressuposto básico, que é a disponibilidade mínima de insumos críticos, deixa de existir. É nesse ponto que a crise de financiamento transcende a esfera administrativa e converte-se em uma questão de vida e morte.

O Direito Internacional Humanitário impõe obrigações inequívocas às partes em conflito no que tange à proteção do pessoal médico e ao acesso humanitário. O artigo 24 da Primeira Convenção de Genebra de 1949, reafirmado pelos Protocolos Adicionais de 1977, estabelece que o pessoal sanitário deve ser respeitado e protegido em todas as circunstâncias. 

A crise de financiamento, ao inviabilizar a presença de equipes de saúde em zonas de conflito, produz um vácuo que, com frequência, não é preenchido por outros atores humanitários, mas pela ausência total de assistência. Esse vácuo é, em si mesmo, uma forma de violação do espírito das Convenções de Genebra, ainda que não se subsuma formalmente a seus dispositivos.

A dimensão geopolítica da crise reclama atenção analítica específica. A retração do financiamento ocidental à assistência humanitária, em particular a de origem norte-americana, não se deu no vácuo. Reflete uma reorientação estratégica de maior amplitude, na qual os recursos públicos são canalizados prioritariamente para a segurança nacional e para a reconstrução da capacidade industrial de defesa. 

Nesse contexto, as organizações humanitárias internacionais têm procurado diversificar suas fontes de financiamento, aproximando-se de doadores do Golfo Pérsico, da Coreia do Sul e de fundações privadas de grande porte. Tal diversificação é necessária, mas insuficiente para compensar a magnitude dos cortes.

O modelo de financiamento humanitário assentado em contribuições voluntárias de Estados, como o próprio CICV reconhece em seus documentos institucionais, é estruturalmente frágil, na medida em que não oferece garantias de continuidade no longo prazo. 

Em momentos de recessão política da generosidade estatal, como o atual, as organizações veem-se compelidas a optar entre abandonar operações inteiras ou preservar uma presença reduzida, amiúde insuficiente frente às necessidades locais. 

Para os enfermeiros que atuam nessas operações, tais escolhas institucionais convertem-se diretamente em condições de trabalho, em volumes de pacientes e na disponibilidade de suporte técnico e logístico.

A crise de financiamento humanitário não é, portanto, apenas um problema financeiro. É, a um só tempo, um problema de saúde global, de direito internacional e de ética profissional. 

A enfermagem humanitária, que opera na interseção entre a ciência clínica, os valores humanitários e a realidade geopolítica, constitui o campo em que todas essas dimensões convergem com maior intensidade. Fortalecê-lo exige, simultaneamente, que se pressione pela recuperação do financiamento no plano político e que se invista na formação de profissionais aptos a operar com excelência mesmo sob as condições mais adversas.

Enquanto os números do orçamento global de ajuda humanitária prosseguem em recuo, os números de pessoas que dela necessitam seguem em ascensão. Essa contradição não se resolve por meio de adaptações técnicas isoladas. Exige uma resposta política à altura de sua magnitude. Mas, enquanto tal resposta não se concretiza, são os enfermeiros em campo que sustentam, com seus próprios corpos e sua própria resiliência, o que restou do sistema internacional de proteção humanitária.


Referências

ASGARI, P. et al. Mitigating the impact of the challenges of shortages of nurses and patient care equipment during crises. BMC Nursing, v. 24, n. 747, 2025.

COMITÊ INTERNACIONAL DA CRUZ VERMELHA. Relatório Anual 2024 do CICV. Genebra, 2025.

COMITÊ INTERNACIONAL DA CRUZ VERMELHA. Sobre nosso financiamento e gastos. Disponível em: https://www.icrc.org/pt/sobre-nosso-financiamento-e-gastos. Acesso em: 1 jul. 2026.

CNN BRASIL. Cruz Vermelha corta quase 3 mil postos de trabalho e reduz orçamento. CNN Brasil, 21 nov. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br. Acesso em: 1 jul. 2026.

HORN, Z.; RANSE, J.; MARSHALL, A. The SHARE-HRS Decision Making Model of Scarce Health Resource Allocation in Humanitarian Response Settings. Disaster Medicine and Public Health Preparedness, 2026.

HORN, Z.; MARSHALL, A. P.; RANSE, J. An Evidence Gap Map of Experience-based Evidence of Health Resource Allocation in Disaster and Humanitarian Settings. Disaster Medicine and Public Health Preparedness, 2024.

ONU NEWS. Agências soam alerta sobre lado trágico do corte de verbas para ajuda humanitária. ONU News, 26 mar. 2025. Disponível em: https://news.un.org/pt. Acesso em: 1 jul. 2026.

THE CONVERSATION. As organizações internacionais de ajuda humanitária passam o pires. The Conversation Brasil, dez. 2025. Disponível em: https://theconversation.com. Acesso em: 1 jul. 2026.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 10520: informação e documentação: citações em documentos: apresentação. Rio de Janeiro, 2023.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6022: informação e documentação: artigo em publicação periódica científica impressa: apresentação. Rio de Janeiro, 2018.


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Enfª e Profª Joice Aparicio Pacheco de Souza
Sobre o autor
Enfª e Profª Joice Aparicio Pacheco de Souza
Professora

Graduada em Enfermagem e Obstetrícia pela Universidade Gama Filho/RJ; pós-graduada lato sensu em Enfermagem do Trabalho (UGF), Docência do Ensino Superior (Universidade Castelo Branco), Auditoria em Sistemas de Saúde (Universidade Estácio de Sá) e em Direito Internacional Humanitário e Direitos Humanos (Instituto Venturo/ADESG, 2026). Serviu como Oficial Enfermeira da Marinha do Brasil, atuando como docente na Escola de Saúde da Marinha, instrutora dos Cursos de Enfermagem Operativa e preceptora de residentes do Hospital Naval Marcílio Dias/RJ; foi Encarregada de Educação Continuada, Emergência e Medicina Operativa no Hospital Naval de Salvador/BA, integrando as equipes de Qualidade e de Controle de Avarias. Tem experiência em supervisão e gestão de enfermagem em hospitais de alta complexidade, com passagens pelo Hospital da UNIMED Maceió/AL, Hospital Naval Marcílio Dias/RJ e Hospital Quinta D’Or/RJ; atuou também como Enfermeira do Trabalho do SESI e docente no SENAI/SESI em Corumbá/MS. Recebeu as condecorações Medalha do Combate à Covid-19, Medalha Elza Cansanção, Medalha Sangue de Heróis, Medalha Comemorativa do Sexagenário de Criação da Polícia do Exército e Medalha Marechal Zenóbio da Costa; mantém atualização em urgência e emergência (AHA, 2022), infecção hospitalar, síndromes coronarianas, SAE e manipulação de cateter Swan-Ganz (HCAP/Bombeiros-RJ). 

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