
A história das relações internacionais é feita de janelas de oportunidade que se abrem por instantes e se fecham para sempre. Quando os Estados Unidos, ao lado de Israel, decidiram desferir o golpe contra o Irã em 28 de fevereiro de 2026, estavam respondendo a uma lógica de poder que poucos governos teriam coragem de enfrentar. O regime dos aiatolás caminhava de forma acelerada rumo ao limiar nuclear, e cada mês de hesitação significava um Teerã mais próximo de obter a arma definitiva, aquela que tornaria qualquer confronto futuro impensável.
Existe um momento certo para agir, e esse momento é sempre antes que o adversário se torne invulnerável. Os estrategistas de Washington compreenderam que esperar significaria condenar o Oriente Médio a viver sob a sombra de um Irã nuclear, com capacidade de chantagear vizinhos, sufocar Israel e ditar o preço da energia mundial. Deixar passar essa janela seria abdicar do papel histórico que os Estados Unidos sempre exerceram como fiador da estabilidade global.
A decapitação do comando iraniano logo no primeiro dia, com a eliminação do líder supremo aiatolá Ali Khamenei e de figuras centrais do alto escalão militar, demonstrou uma capacidade operacional que poucas potências no mundo possuem. Foi uma demonstração de força que reafirmou aquilo que os adversários da civilização ocidental insistem em esquecer, ou seja, que existe um preço altíssimo a pagar por desafiar o poder americano de forma aberta e persistente.
A direita ocidental sempre defendeu uma verdade simples e incômoda para os pacifistas de ocasião. A paz não nasce da fraqueza nem da diplomacia ingênua, ela nasce da dissuasão crível e da disposição de usar a força quando necessário. Sob essa ótica, a decisão de iniciar o conflito não foi um capricho belicista, foi a aplicação prática de um princípio que sustentou a vitória ocidental na Guerra Fria e que continua válido nos dias de hoje.
O contexto interno americano também reforçava a necessidade de ação. Um Irã enriquecendo urânio sem freios, financiando o Hezbollah, armando milícias e ameaçando o Estreito de Ormuz, representava uma bomba relógio que nenhum governo responsável poderia ignorar. Agir cedo, com o adversário ainda vulnerável, era infinitamente preferível a reagir tarde, quando o custo de qualquer intervenção se multiplicaria de forma exponencial.
Havia ainda a dimensão da credibilidade. Uma superpotência que traça linhas vermelhas e depois recua perde algo que dinheiro nenhum recompra, perde a confiança de seus aliados e o temor de seus inimigos. Os Estados Unidos não podiam se dar ao luxo de repetir o erro de hesitação que tantas vezes encorajou regimes autoritários a testar os limites da paciência ocidental. O momento exigia firmeza, e firmeza foi o que se viu nas primeiras semanas da campanha.
Tudo isso compõe a face luminosa da decisão americana, aquela que justifica plenamente a iniciativa de aproveitar a janela estratégica que se apresentava. O problema, e aqui começa a parte sombria desta análise, é que vencer a guerra no campo militar não significa vencê-la no tabuleiro político, estratégico e diplomático. E é exatamente nesse terreno que os acontecimentos das últimas semanas apontam para um desfecho profundamente desfavorável.
O acordo provisório assinado em 14 de junho, em meio à cúpula do G7 na França, foi celebrado por Washington como uma vitória, mas a leitura fria dos termos revela outra realidade. O memorando de quatorze pontos prevê a reabertura do Estreito de Ormuz, o fim das sanções ao Irã e um fundo de trezentos bilhões de dólares para a reconstrução do país. Para um regime que estava de joelhos após a perda de seu líder supremo, esses termos representam um alívio extraordinário e quase inexplicável.
Analistas de diferentes matizes já chamam o entendimento de acordo do século para o Irã, e não sem razão. Teerã obteve reconhecimento político internacional, alívio econômico e a sobrevivência do regime, tudo isso sem ter cedido na questão que originou o conflito, ou seja, o destino do urânio enriquecido que permanece em seu poder. A questão nuclear, coração de toda a empreitada militar, foi simplesmente empurrada para uma negociação de sessenta dias cujo resultado é incerto.
Quando uma potência inicia uma guerra com o objetivo declarado de impedir um programa nuclear e termina assinando um documento no qual esse mesmo programa permanece sem definição, algo saiu profundamente errado na execução estratégica. O Irã preservou cerca de dois terços de seus lançadores de mísseis, manteve metade de sua capacidade de drones e ainda aproveitou o cessar fogo para retomar a produção bélica. O adversário que deveria estar neutralizado segue empoderado.
A própria inteligência americana reconhece que as autoridades em Teerã se sentem fortalecidas com o resultado do conflito até aqui. O Estreito de Ormuz revelou se uma arma mais poderosa do que qualquer ogiva, pois o bloqueio elevou os preços da energia e dos alimentos, pressionou a inflação e atingiu diretamente o bolso do eleitor ocidental. O Irã descobriu que pode sangrar o Ocidente economicamente sem precisar disparar a bomba que tanto se temia.
Há ainda o fator que talvez seja o mais corrosivo de todos para a posição americana, o tratamento dispensado a Israel. O aliado que combateu lado a lado com Washington desde o primeiro dia foi deixado de fora do acordo, teve seu pedido de acesso à íntegra do memorando negado e viu suas preocupações de segurança nacional ignoradas. Um aliado que sangra ao lado de seu parceiro e depois é alijado da mesa de negociação aprende uma lição amarga sobre o valor das promessas.
Esse isolamento de Israel não é um detalhe menor, é um erro estratégico de grandes proporções. A força do Ocidente no Oriente Médio sempre repousou sobre a aliança sólida e inabalável com o Estado judeu. Ao priorizar um entendimento apressado com Teerã em detrimento da confiança de Jerusalém, Washington enfraqueceu o pilar mais confiável de sua política regional e enviou um sinal preocupante a todos os seus parceiros pelo mundo.
Os acontecimentos da última sexta feira, 19 de junho, expuseram a fragilidade de toda a arquitetura montada às pressas. Novos confrontos entre Israel e o Hezbollah no Líbano, com soldados israelenses mortos e dezenas de baixas em território libanês, colocaram o acordo à beira do colapso. O Irã condicionou a continuidade das negociações ao fim das operações israelenses, e a delegação iraniana sequer viajou à Suíça para a rodada técnica prevista.
A cena do vice presidente americano com a equipe e os jornalistas prontos para embarcar, apenas para ter a viagem cancelada de última hora, simboliza com perfeição o impasse diplomático em que Washington se meteu. A pressa em anunciar um triunfo transformou se na exposição pública de um processo que escapa ao controle americano. Quem dita o ritmo das negociações agora é Teerã, não Washington, e essa inversão de papéis é a essência da derrota estratégica.
O presidente americano reagiu com a retórica habitual, afirmando que o Irã está acabado e que não receberá um centavo, mas as palavras duras nas redes sociais não alteram a realidade do tabuleiro. Quando uma potência precisa repetir quarenta vezes que a guerra está prestes a terminar, e mesmo assim ela não termina, fica evidente que o domínio dos acontecimentos lhe escapou das mãos. A força das declarações não compensa a fraqueza dos resultados.
Aqui reside a grande lição que a direita responsável precisa extrair deste episódio. Iniciar a guerra foi acertado, pois a janela estratégica era real e o perigo iraniano era concreto. O erro não esteve na decisão de combater, esteve na ausência de uma estratégia de saída que convertesse a superioridade militar em vitória política duradoura. Guerra sem objetivo político claro é energia desperdiçada, e foi exatamente isso que se viu.
A vitória militar dos primeiros dias deveria ter sido transformada em condições inegociáveis sobre o programa nuclear, sobre o desmantelamento das milícias e sobre o fim do programa de mísseis. Em vez disso, esses temas centrais ficaram de fora da pauta das negociações, segundo as próprias fontes envolvidas. Renunciar aos objetivos que justificaram a guerra é, na prática, declarar que o sacrifício de mais de sete mil vidas não produziu o resultado prometido.
O preço dessa condução desastrada será cobrado em várias frentes. Os aliados do Ocidente observam e calculam, e a conclusão que tiram é desanimadora, ou seja, que o apoio americano pode evaporar no momento decisivo. Os adversários, por sua vez, registram que é possível enfrentar a maior potência militar do planeta, sofrer golpes severos e ainda assim sair da mesa com ganhos políticos e econômicos significativos.
A diplomacia americana, que deveria coroar o esforço militar com um arranjo de segurança robusto e verificável, entregou um memorando genérico recheado de pendências e dependente da boa vontade de um regime que jamais escondeu seu desprezo pelo Ocidente. O porta voz do Parlamento iraniano declarou que o dedo do país permanece no gatilho, frase que resume o quanto Teerã se sente vitorioso e disposto a continuar pressionando.
A conclusão que se impõe é dolorosa para quem defende a firmeza ocidental. Os Estados Unidos venceram as batalhas e estão perdendo a guerra, no sentido mais profundo que Clausewitz atribuiu ao termo, ou seja, a continuação da política por outros meios. Ganhar no campo de batalha e perder na mesa de negociação é o pior dos mundos, pois consome o capital militar sem produzir o dividendo político correspondente.
Que sirva de advertência para o futuro. A força é indispensável e seu uso oportuno foi correto, mas a força desacompanhada de visão estratégica e de lealdade aos aliados converte se em mera demonstração de potência sem propósito. O Ocidente precisa reaprender que vencer a guerra é apenas metade da tarefa, e que a metade mais difícil, aquela que define vencedores e vencidos diante da história, é construir a paz nos próprios termos. Nisso, lamentavelmente, o desfecho que se desenha aponta para Teerã, e não para Washington.

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