
O sul do Líbano voltou a sangrar nesta semana. Disparos atribuídos a forças israelenses mataram duas pessoas na região de Nabatieh, segundo a Defesa Civil e o Ministério da Saúde libaneses. Foram as primeiras mortes em território libanês após três dias de relativa calmaria, o que reacendeu o temor de uma nova escalada justamente quando uma frágil trégua começava a se firmar.
O episódio coloca à prova um cessar-fogo respeitado de forma ampla desde o último domingo, a pausa mais longa registrada nesta guerra. O conflito se espalhou para o Líbano a partir do confronto entre Estados Unidos e Irã, deflagrado em fevereiro. Naquele momento, o Hezbollah abriu fogo contra Israel em apoio a Teerã, e Israel respondeu com sua segunda ofensiva no país desde dois mil e vinte e quatro.
A morte dos dois civis expõe a fragilidade estrutural de qualquer trégua nesse cenário. O Hezbollah classificou o incidente como violação do acordo. As forças israelenses afirmaram ter atingido pessoas armadas que representavam ameaça imediata, dentro daquilo que chamam de zona de segurança. As versões divergem, e a dúvida sobre os fatos alimenta o ciclo de desconfiança que pode romper a pausa a qualquer instante.
Esse desencontro de narrativas não é detalhe menor. No Direito Internacional Humanitário, a distinção entre combatentes e civis constitui princípio inegociável. Quando cada parte descreve a mesma vítima de modo oposto, uma como civil inocente e outra como combatente legítimo, abre-se um espaço perigoso no qual a proteção das pessoas comuns se dissolve em disputas de versão e justificativas militares genéricas.
É nesse ponto que o cenário libanês deixa de ser apenas regional e passa a depender, de forma decisiva, do que acontece dentro dos Estados Unidos. A guerra que atinge o Líbano nasceu da ofensiva americana contra o Irã, e o desfecho do conflito está hoje atravessado por uma disputa institucional em Washington que poucos previam com tamanha intensidade.
O Senado norte-americano aprovou nesta terça-feira uma resolução determinando que o presidente Donald Trump suspenda as ações militares contra o Irã ou obtenha autorização do Congresso para prosseguir. A votação terminou em cinquenta a quarenta e oito, com quatro republicanos somando-se aos democratas. A mesma medida já havia passado pela Câmara no início do mês, configurando um movimento raro de freio parlamentar.
O peso simbólico dessa decisão é enorme. Foi a primeira vez que ambas as casas do Congresso aprovaram uma resolução conjunta instruindo um presidente a encerrar uma ação militar com base na Lei dos Poderes de Guerra de mil novecentos e setenta e três. O gesto sinaliza um desconforto crescente, inclusive entre republicanos, com uma guerra considerada impopular e de contornos cada vez mais imprevisíveis.
Na prática, contudo, a medida permanece em grande parte simbólica. Por se tratar de uma resolução de poderes de guerra, ela não é enviada à Casa Branca para sanção presidencial e não adquire força de lei. A Casa Branca, aliás, insiste que a legislação é inconstitucional, o que antecipa um embate jurídico sobre os próprios limites do poder de guerra do Executivo americano.
A reação de Trump foi imediata e contundente. Em sua rede social, o presidente afirmou ter o Irã nas cordas e classificou a votação como inoportuna e sem sentido. Disse ainda que os senadores tornaram seu trabalho mais difícil, mas que concluiria o objetivo de uma forma ou de outra, porque, segundo ele, sempre conclui o que se propõe a fazer.
O argumento central da Casa Branca é estratégico. Trump sustenta que a resolução, ao sinalizar reprovação interna, enfraquece a posição americana na mesa de negociação e fortalece o adversário. Para ele, a mensagem de que os Estados Unidos desaprovam a ofensiva chegaria a Teerã no pior momento possível, justamente quando o Irã estaria disposto a negociar praticamente qualquer coisa com Washington.
Há, porém, uma leitura oposta e igualmente legítima. A exigência de aval legislativo para novas ofensivas reintroduz um espaço de deliberação que pode favorecer a contenção e reduzir o risco de escalada. O controle político sobre o uso da força é um princípio caro às democracias, e sua erosão em nome da eficácia militar costuma cobrar um preço alto no longo prazo.
Essa disputa interna americana tem consequências diretas sobre os civis libaneses. Cada sinalização de Washington reverbera no terreno, influenciando o cálculo de Israel, do Hezbollah e do próprio Irã sobre até onde podem ir. A trégua no sul do Líbano não se sustenta apenas em Beirute ou Jerusalém, mas também no pulso dividido de uma potência que ainda não decidiu se aperta ou afrouxa o gatilho.
A dimensão humanitária do conflito tornou-se ainda mais grave com as ordens de evacuação forçada emitidas em diversas áreas do Líbano. Um porta-voz da ONU afirmou que essas ordens são praticamente impossíveis de implementar com segurança, o que coloca em dúvida o cumprimento do Direito Internacional Humanitário. A crítica partiu de dentro do próprio sistema multilateral, e não de um ator interessado no conflito.
O Direito Internacional Humanitário admite a evacuação de populações em circunstâncias excepcionais, mas impõe condições rigorosas. A medida deve ser temporária, precisa garantir abrigo, alimentação e segurança aos deslocados e não pode servir de pretexto para esvaziar territórios de forma permanente. Sem essas garantias, a evacuação deixa de ser proteção e se aproxima do deslocamento ilegal de civis.
As consequências dessas ordens vão além do deslocamento imediato. Organizações humanitárias relatam dificuldades crescentes para fornecer cuidados de saúde, alimentos e abrigo aos evacuados, sobretudo em áreas remotas. A superlotação dos locais de refúgio e o risco de propagação de doenças agravam uma crise que já se arrastava antes da nova fase de combates, e que tende a piorar a cada dia de indefinição diplomática.
O paradoxo americano fica evidente nesse contraste. Enquanto o Congresso discute o controle formal sobre a guerra, a população do sul do Líbano vive as consequências concretas de uma ofensiva cuja origem está em Washington. A distância entre o debate institucional na capital americana e o sofrimento no terreno libanês mede, com precisão dolorosa, o abismo entre a política de potência e a proteção humanitária.
A própria condução das negociações reforça essa ambiguidade. Trump afirma que o Irã está em apuros e pronto para ceder, enquanto Teerã apresenta versões contraditórias sobre o andamento das conversas. Essa assimetria de narrativas entre as duas potências mantém o cessar-fogo libanês refém de um jogo que se decide longe das vilas atingidas, e cujo desfecho permanece incerto.
Para o Direito Internacional Humanitário, a lição é direta. A interrupção dos combates é condição necessária, mas não suficiente. Sem mecanismos de responsabilização pelas mortes de civis, sem apuração das ordens de evacuação e sem reparação às vítimas, qualquer acordo corre o risco de apenas congelar o conflito, deixando intactas as causas profundas da violência que atravessa a região.
O caso libanês funciona ainda como teste da eficácia das normas humanitárias em conflitos altamente internacionalizados. Quando potências externas, atores estatais e grupos armados não estatais se misturam no mesmo teatro de operações, a aplicação das regras se torna mais complexa e a responsabilização mais difícil. O risco de impunidade cresce na exata medida dessa complexidade.
O cessar-fogo no sul do Líbano oferece uma janela de oportunidade que não deveria ser desperdiçada. Transformar essa pausa frágil em paz consistente exige cronogramas claros, garantias efetivas de proteção aos civis e mecanismos sérios de responsabilização. Sem esses elementos, a trégua corre o risco de ser apenas o intervalo entre dois capítulos de uma mesma tragédia.
Acompanhar o que ocorre no Líbano e em Washington ao mesmo tempo é compreender que o destino dos civis em zonas de conflito não se decide apenas nas linhas de frente. Decide-se também nos plenários, nas redes sociais dos chefes de Estado e nas disputas sobre quem detém o poder de iniciar ou encerrar uma guerra, num momento em que essa pergunta voltou ao centro do debate.
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