
Há tragédias que o mundo escolhe não ver. O Sudão é a mais grave delas neste momento, e talvez justamente por isso seja a menos comentada. Enquanto câmeras e editoriais se concentram em conflitos com maior apelo geopolítico imediato, milhões de sudaneses vivem aquilo que as Nações Unidas já classificaram como a maior catástrofe humanitária do planeta. São mais de trinta e quatro milhões de pessoas necessitando de assistência, vinte e um milhões sem acesso a serviços básicos de saúde e cerca de quatro milhões em estado de desnutrição aguda. Os números são tão grandes que perdem força. Viram estatística. E a estatística, ao contrário da imagem de uma criança faminta, não constrange ninguém.
A guerra civil sudanesa eclodiu em abril de 2023, quando a disputa de poder entre as Forças Armadas regulares e a milícia paramilitar conhecida como Forças de Apoio Rápido se converteu em conflito aberto. Desde então, as estimativas mais conservadoras falam em centenas de milhares de mortos e mais de quatorze milhões de deslocados, quase um quarto da população do país. O epicentro do horror tem nome. El Fasher, a última grande cidade de Darfur que resistia ao controle paramilitar. Após dezoito meses de cerco, a cidade caiu em outubro de 2025. O que se seguiu foi documentado por investigadores independentes das próprias Nações Unidas como portador dos sinais característicos de um genocídio.
Em apenas três dias, segundo relatos colhidos pela ONU, mais de seis mil pessoas foram mortas. Houve execuções sumárias, violência sexual usada como arma de guerra e desaparecimentos forçados. Famílias inteiras foram fuziladas enquanto se abrigavam em prédios universitários. Sobreviventes que chegaram à fronteira com o Chade vieram descalços, com ferimentos de bala e marcas profundas de dias caminhando pelo deserto. A missão investigativa da ONU foi categórica ao afirmar que esses crimes não foram excessos aleatórios da guerra. Foram parte de uma operação planejada e organizada, com endosso público da liderança paramilitar, dirigida especificamente contra as comunidades Zaghawa e Fur. A escala, a coordenação e a intenção configuram exatamente aquilo que o Direito Internacional se comprometeu, no pós-guerra, a jamais permitir novamente.
Nenhuma milícia sustenta uma guerra dessa magnitude sozinha. E é aqui que a análise precisa avançar para além do lugar comum humanitário e tocar a questão que realmente incomoda. Organizações respeitadas como a Human Rights Watch, o Conflict Insights Group e a Refugees International acumularam evidências de que as Forças de Apoio Rápido recebem armas, drones e apoio logístico de potências externas. O dedo aponta de forma cada vez mais insistente para os Emirados Árabes Unidos. As investigações revelam algo que beira o surreal. Mercenários colombianos teriam sido recrutados por empresa sediada nos Emirados, transitando por bases militares emiratenses a caminho de Darfur. O relatório do Conflict Insights Group é direto ao concluir que, sem essa assistência externa, o cerco, a tomada da cidade e as atrocidades resultantes provavelmente não teriam ocorrido.
Os Emirados negam tudo. E, em fevereiro de 2026, anunciaram quinhentos milhões de dólares em ajuda humanitária para o Sudão. A organização Refugees International deu nome preciso a esse gesto. Chamou de aid washing, a prática de lavar a imagem com ajuda humanitária enquanto se financia, por baixo do pano, a própria tragédia que gera a necessidade dessa ajuda. É a velha lógica de incendiar a casa para depois aparecer com o extintor diante das câmeras.
Vale a pergunta incômoda. Por que esse genocídio não mobiliza as ruas das capitais ocidentais. Por que não há acampamentos em universidades, nem celebridades discursando, nem bandeiras sudanesas estampadas em perfis de redes sociais. A resposta é desconfortável e revela muito sobre o estado moral do debate público contemporâneo. A indignação, hoje, raramente é proporcional ao sofrimento. Ela é proporcional à utilidade política do sofrimento. Quando a vítima e o algoz se encaixam numa narrativa conveniente, mobiliza-se o mundo inteiro. Quando não se encaixam, prevalece o silêncio. Em Darfur, os algozes não servem ao roteiro ideológico que costuma dominar os campi e as redações progressistas. Logo, o massacre não rende manchete nem passeata.
Esse é o ponto que merece sublinhar. A causa humanitária, que deveria ser universal por definição, foi sequestrada por uma militância que escolhe suas vítimas conforme a conveniência. E ao escolher, condena ao esquecimento todos os que não cabem na pauta. Os mortos de El Fasher pagam o preço dessa seletividade.
O Sudão funciona como um espelho cruel para a ordem jurídica internacional construída após 1945. Aquela arquitetura de tratados, convenções e protocolos foi erguida sobre uma promessa solene, a de que o nunca mais teria sentido prático. As Convenções de Genebra existem. A Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio existe. O Tribunal Penal Internacional existe. E, ainda assim, El Fasher aconteceu sob os olhos de um mundo que dispõe de todos os instrumentos para agir e simplesmente não age.
O Conselho de Segurança chegou a impor sanções a quatro líderes paramilitares, incluindo o comandante que ficou conhecido como o açougueiro de El Fasher. É algo. Mas é tristemente pouco diante da magnitude do que ocorreu. Sanções a indivíduos não desarmam uma milícia abastecida por um Estado rico e tecnologicamente sofisticado. O problema, como já se observou em análises anteriores nesta coluna, é estrutural. Quando as normas humanitárias passam a ser aplicadas conforme a conveniência geopolítica, elas deixam de ser balizas universais e viram itens de um cardápio. Invoca-se a norma contra o adversário e ignora-se a norma quando o violador é um parceiro estratégico. E o Ocidente, é preciso reconhecer com honestidade, tem suas próprias contradições nessa conta.
Aqui reside uma questão delicada que exige sobriedade analítica. Os Emirados Árabes Unidos são parceiros comerciais e militares relevantes para diversas potências ocidentais. É exatamente essa relação que paralisa as reações mais firmes. O cálculo do interesse silencia o imperativo moral. Trata-se de um erro estratégico, não apenas de uma falha ética. O Ocidente construiu sua liderança global sobre algo mais do que poder militar e econômico. Construiu-a sobre a alegação de representar uma ordem baseada em regras e em valores. Quando fecha os olhos para um genocídio cometido por aliados, corrói o próprio fundamento dessa liderança.
A coerência, nesse caso, não é luxo moral. É ativo geopolítico. Potências rivais, como China e Rússia, exploram com habilidade cada exemplo de duplo padrão ocidental para esvaziar a legitimidade da ordem liberal e seduzir o Sul Global. Cada silêncio sobre Darfur é munição entregue de graça a quem deseja construir uma ordem internacional sem freio humanitário algum. Defender a vida em Darfur, portanto, não é apenas o que é certo. É também o que é inteligente. É reafirmar que o Ocidente leva a sério aquilo que prega, mesmo quando isso custa caro junto a parceiros incômodos.
A tragédia sudanesa não vive isolada. O conflito recente envolvendo o Irã produziu choques globais nos preços de combustíveis e fertilizantes, e esses choques desabaram sobre o agricultor sudanês com força devastadora. Sem combustível acessível e sem fertilizante, o plantio recua. E menos plantio, num país já à beira da fome, significa mais desnutrição, mais deslocados e mais mortos. A guerra de uma região alimenta literalmente a fome de outra, numa cadeia de causas que o noticiário raramente conecta. Isso demonstra algo que a coluna sempre defendeu. O sistema internacional é um organismo interligado. Não existem crises locais puras. O incêndio do Oriente Médio espalha brasas pela África, e a omissão diante dessas brasas só prepara incêndios maiores adiante.
Há um princípio antigo segundo o qual o mal prospera quando os homens de bem nada fazem. Darfur é a prova contemporânea dessa máxima. Não faltam relatórios. Não faltam evidências. Não faltam tribunais nem tratados. Falta vontade. Falta a coragem de nomear os responsáveis sem o filtro da conveniência diplomática. Falta a disposição de pressionar os padrinhos do massacre, ainda que sejam parceiros valiosos. E falta, sobretudo, honestidade no debate público. Enquanto a indignação seguir sendo distribuída conforme a utilidade ideológica das vítimas, os sudaneses continuarão morrendo no escuro, longe das câmeras que só se acendem para causas convenientes.
O verdadeiro teste de uma civilização não está em como ela trata as vítimas que lhe interessam. Está em como trata aquelas que poderia simplesmente ignorar sem custo aparente. Por esse critério, o silêncio sobre Darfur é uma reprovação coletiva. Lembrar El Fasher é o mínimo que se pode fazer. É recusar a cumplicidade do esquecimento. É afirmar que a vida sudanesa vale exatamente o mesmo que qualquer outra, independentemente de quem segura a arma e de quem fornece a munição. E é exigir do Ocidente que esteja à altura dos valores que diz defender, pois é justamente nessa coerência que reside a sua força. O mundo já decidiu não olhar. Cabe a quem ainda acredita na universalidade da dignidade humana insistir em mostrar.
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Como reconstruir um país após um trauma? A literatura talvez seja um dos caminhos simbólicos para isso, ainda que nem sempre o mais fácil. Em 2024, são lembrados os 30 anos do genocídio de Ruanda. Um massacre que deixou 800 mil mortos, a maioria tutsi. Escrever para lembrar e mais: para que nunca se apague.
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Em 1960, seqüestrado num subúrbio de Buenos Aires por um comando israelense, Adolf Eichmann é levado para Jerusalém, para o que deveria ser o maior julgamento de um carrasco nazista depois do tribunal de Nuremberg. Mas, durante o processo, em vez do monstro sanguinário que todos esperavam ver, surge um funcionário medíocre, um arrivista incapaz de refletir sobre seus atos ou de fugir aos clichês burocráticos. É justamente aí que o olhar lúcido de Hannah Arendt descobre a "banalidade do mal", ameaça maior às sociedades democráticas.
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